Sunday, March 04, 2012

Blefando

Arredores de Uden e Veghel, 17 de Setembro de 1944



Caro Francis



Fico feliz que está tudo bem aí. Mas me diga: quando, afinal de contas, você voltará para o conflito? Lembro que você tinha quebrado a perna. Ela já melhorou?

Eu tenho uma língua abençoada, com certeza. Simplesmente porque quando eu falo “algo grande vai acontecer” sempre acontece. É incrível!

Digo isso, pois hoje voltamos a combater. Dessa vez na Holanda ocupada. Deram o nome da operação de “Operação Market-Garden”, que se consiste basicamente em criar um ‘corredor’ para as forças aliadas até a Alemanha, evitando assim a linha Siegfried e dando a chance de essa guerra terminar antes do natal (que pretendo passar em casa). Mas ainda permaneceremos, em parte, com o mesmo plano de 6 de junho: capturar estradas, encruzilhadas, vilas e pontes em especial. A inteligência nos disse que não haveria muita resistência, pois o Wehrmarcht estaria concentrando as suas forças mais na frente russa. Mais um plano dos ingleses.

Cada uma das divisões Airborne ficou encarregada de assegurar um setor:

82nd “All Americans” – cidades de Grave e Nijmegen e suas pontes;
101st “Screaming Eagles” – cidade de Eindhoven e suas pontes e arredores;
1st “Red Devils” – cidade de Arnhem e sua ponte e arredores (britânicos).

Pelo menos os britânicos iriam se expor mais, saltando a 75 milhas dentro do território inimigo. Nós só iríamos saltar por volta de 35 a 45 kilometros.

Ao contrário dos saltos noturnos na Itália e na França, esse foi diurno.

Dessa vez nós levamos pouco equipamento comparado ao nosso “carregamento” em 6 de junho, pois nos foi dito que receberíamos apoio de blindados ingleses.

Admito que até me senti bem quando entrei no avião novamente...sei lá, parece que estava voltando pra casa, ou algo do tipo...muito estranho na verdade.

Bom...o grupo ficou sendo esse:

Ten. Howard Hughes “Hug” Heiss
1º Sgt. Luke SaintJames Oak
Cb. Nelson “Nox” Oxford
Cb. James Fox
Sld. Joe Topak
Sgt. John Capovich
Sld. Joshua O’Brian
Sld. Claude “Frenchman” Anderson
Sld. Bill “Judas” Juda
Cb. Braxton Spielgman
Cb. Viktor “Bonner” Bonnerius
Sld. Ruiz Constino
Spc. Ross “Al” Hudson
Sld. James “Oz” Osbourne
Sld. Leon De’Loren

Mais uma vez, iríamos descer dos céus atacando impiedosamente o inimigo, como as águias dos bordados dos nossos uniformes, símbolos da nossa divisão: A 101st.

Já no avião, a Inteligência Militar passou a ser conhecida como ‘Burrice Militar’. Isso porque haviam mais baterias anti-aéreas na Holanda do que em Bremen, no meio da Alemanha.

Olhando para fora dava pra ver alguns aviões sendo atingidos. Literalmente, os ossos do maldito ofício!

A luz vermelha acendeu e o Tenente Heiss se levantou e, gesticulando, gritou:

-“DE PÉ!!!” – nos levantamos

- “ENGATAR!!!” – engatamos o cabo do pára-quedas principal para saltarmos.

- “CHECAR EQUIPAMENTO!!!” – começamos a chegar e averiguar se o equipamento estava bem preso.

- “SOAR CHECAGEM!!!” – começamos a falar o nosso número e em seguida ‘ok’, para dizer que o equipamento estava certo.

Mas o tenente fez em seguida, algo que eu não esperava...aliás, o que ninguém do grupo esperava. Ele simplesmente virou para nós e gritou:

- “EM QUEM O EXÉRCITO CONFIA MAIS?”

Respondemos: “AIRBORNE!”

- “QUEM AS GAROTAS GOSTAM MAIS?”

Respondemos: “AIRBORNE!”

- “QUEM OS NAZISTAS TEMEM MAIS???”

Respondemos: “AIRBORNE!”

Nessa hora a luz verde acendeu e ele gritava enquanto saltávamos, com um entusiasmo e com uma sensação incrível de ‘invencibilidade’: “VÃO, VÃO, VÃO, VÃO!!!!”

Não ligávamos para a artilharia anti-aérea...simplesmente nos sentíamos invencíveis...como se pudéssemos, naquele instante, chegar até Berlin e pegar aquele tão sonhado “ticket” para casa!

Como sempre, não foi uma aterrissagem muito confortável. Eu atravessei o telhado de uma casa chegando ao sótão. Malditas telhas. Só pude ouvir gritos dos alemães vindos do andar de baixo. Imediatamente eu soltei o pára-quedas, tirei a bóia e peguei a minha Thompson.

Procurei um jeito de descer de lá. Por sorte tinha uma escada. Em seguida ouvi mais gritos, vindo dos alemães, seguidos de tiros. Pelos sons eram tiros de ambos os lados: Pára-quedistas e alemães.

Fui descendo as escadas, apontando a minha arma no caminho. Mas não demorou muito e um chucrute apareceu do nada. Só tive tempo de puxar o gatinho, nem pensei se havia outro deles por perto.

Depois disso eu escutei algo como: “Achtung! Feind im Haus!” (Cuidado! Inimigo dentro da casa!), seguido de: “Jagd auf ihn! Los! Los! Los!” (Peguem ele! Vão! Vão! Vão!).

Antes que eu pudesse pensar em algo, outro pára-quedista atravessou o teto, ficando pendurado. Esse era o soldado Jeremy Barnes do 501st. Assim que ele fez essa ‘aparição’ eu logo perguntei: “Tudo bem, filho?” e ele respondeu: “Tô sim, sargento! Me ajude a descer, rápido! Tem chucrutes por toda a parte!”
Consegui descê-lo e em seguida ele pegou sua arma, um BAR e seguimos pela casa. Não demorou muito e encontramos mais alemães e começou aquele tiroteio infernal.

O Barnes tinha um rádio, então dava para saber a situação do resto da divisão, bem como a 82nd, que a sua maioria tinha saltado bem no meio de Nijmegen e estavam sofrendo com o fogo cerrado.

Mas nós da 101st também estávamos com problemas e tínhamos que nos concentrar. Eles têm o trabalho deles e nós temos o nosso.

No meio disso tudo eu pude ouvir os alemães gritando: “wir verlieren an Boden! zurück!” (Nós estamos sucumbindo! Recuar!). Só que eles recuaram exatamente para a posição onde estavam o Barnes e eu. Foi como atirar em um estande...ninguém sobreviveu.

Depois que o últimos dos inimigos caiu, eu escutei aquela voz de comediante: “Uhuul! Eu adoro o cheio de pólvora pela manhã!” era ninguém mais ninguém menos que aquele piadista do Nox. O mais incrível é que ninguém que estava no meu C-47 foi morto ou ferido em combate! Muito menos os novatos.

Logo que reencontrei o grupo, perguntei onde estava o tenente. Mas ninguém sabia onde ele estava. O Spielgman disse que viu o C-47 ser abatido, mas não viu o pára-quedas do tenente.

E perguntei logo em seguida: “Alguém sabe onde diabos nós estamos?” e quem respondeu essa pergunta foi o Barnes: “Estamos próximos a Best, que fica a noroeste de Eindhoven. E não, não perdemos a zona de salto sargento!”

E ele completou: “Alguém aqui viu o cabo Alex Rico, do meu regimento?”

“Não” – essa foi a resposta geral. Provavelmente porque o cabo Rico deve ter se separado do resto do seu grupo ou já deve ter se afastado da zona de salto.

Para ver como as coisas são: Na Normandia, o problema era e sempre foi o salto noturno...e na Holanda...bom, na Holanda continuou o mesmo caos que envolve qualquer operação militar: o erro humano.

As vezes eu me pergunto: Por que diabos eu queria ser um pára-quedista?
Mas aí eu lembro: para lutar contra a tirania!

Poético, eu sei...mas é a verdade...pelo menos pra mim.

Bom, deixa eu voltar pra aquela casa em Best.

Juntamos aquele grupo e dividimos o comando entre o Capovich e eu, apenas para facilitar a coordenação.

Rumamos para o sudeste, em direção à EindHoven...e para nos reagruparmos com o resto da 101st Divisão.
O mais engraçado é que, caminhando por aqueles campos...não me sentia participando de uma grande operação de guerra...parecia mais uma cena de filme, com toda aquela paisagem serena, do que uma zona de conflito.

Imagine a cena, Francis: campos floridos, pássaros cantando, céu azul com poucas nuvens...a perfeição para me encontrar com a Marie, por exemplo.

Era onde morava o perigo...não estávamos com 100% da nossa atenção...um erro seria fatal.

Mas a nossa falta de atenção chegara ao fim quando, ao chegarmos perto de um moinho de vento, vimos o corpo já tem vida de um pára-quedista da 101st pendurado em uma das pás.

Era do cabo Alex Rico...quem o Barnes procurava. Tinha algumas perfurações de flak no peito...provavelmente fora ferido enquanto descia e fora morrer antes de ficar preso no moinho.

Barnes ficou paralisado ao ver aquela cena...não podia acreditar que o amigo, com quem servira na França e por quem tinha tremenda afinidade, estava morto e pendurado como se fosse um pedaço de carne.

Ele queria subir lá e descê-lo, mas não permiti...se houvessem atiradores por perto, eu estaria fechando os olhos de 2 pára-quedistas. Paramos e o consolamos um pouco.

Foi quando de repente ouvimos um estalo no flanco direito da nossa formação...perto de uns arbustos. Consolidamos nossas posições e apontamos nossas as armas para aquela direção.

Ouvimos, em seguida, uma voz que dizia com um sotaque escocês bem típico:
“Vocês ianques sanguinolentos são mais escandalosos que um bebê recém nascido...ouvimos vocês há quase 1 km daqui...e poderíamos acertá-los na mais completa escuridão!”

Quando fomos perceber...estávamos cercados de “Red Devil’s”, ou que pelo menos aparentavam ser.

Vestiam uniforme padrão camuflado, coturnos marrons, e boinas vermelhas: Eram pára-quedistas ingleses...mais precisamente da 22nd Divisão dos Serviços Aéreos Especiais (ou SAS), notei por causa da insígnia na boina...que era diferente das dos Red Devil’s.

Eram ao todo 7 homens, que eram liderados por um major, que mantinham um padrão tão rigoroso que era quase impossível distinguir um do outro.

Esses ingleses são esquisitos...nunca consegui entendê-los...nunca!

O mais esquisito de todos era, sem dúvida alguma, o major: Se chamava James Kelloway. Era um escocês ruivo que usava um bigode que o deixava com uma aparência, podemos dizer, um tanto suspeita.

Que droga, esse escocês dizia que nós “ianques” éramos escandalosos...mas aquele cabelo ruivo dele era tão chamativo que poderia dizimar um grupamento inteiro se um observador inimigo o avistasse (o que não seria muito difícil de acontecer).

Mas, voltando aos ingleses, os 8 SAS eram:
Mj. James Kelloway
Ten. Elliot Wimbledon
Sgt. Frederick Johnson
Cb. Alfred Wilkings
Cb. Armand Klein
Cb. Wilfrey Donald
Spc. Kenny Locke
Sld. Carl Spencer

Eles haviam servido na França, como a maioria de nós. Mas, também, haviam estado na Itália e no Norte da África, na luta contra os Afrika-Corps de Rommel.

Viram o mesmo horror...lutaram contra o mesmo inimigo...

Enfim, derramamos o mesmo sangue na mesma lama.

Ele perguntou quem estava no comando, e logo me destaquei...sendo que o tenente estava desaparecido, desde o salto.

Admito que me surpreendeu quando o major pediu a nós “ianques” ajuda para uma “missão secreta”.
Disse que já tínhamos a nossa missão e que era tão importante quanto a deles...mas algo que o major me disse em seguida, chamou a minha atenção...
Ele havia dito: “Essa missão é de suma importância para a guerra, sargento...não se baseia em atacar e destruir um alvo específico, mas sim está focada em informações para a inteligência militar do nosso alto comando aliado!”

Era a primeira vez que tinha ouvido falar sobre algo do tipo: mandar um grupo de soldados colher informações...mas não como uma tropa de reconhecimento.

Pedi alguns detalhes, e o major assim me explicou:

- Sargento, assim que decolamos da Inglaterra, recebemos a missão de resgatar 2 líderes de células da resistência: um da resistência espanhola e outro da resistência holandesa, que foram capturados há alguns anos.
Essa missão de resgate, por assim dizer, deveria ter ocorrido em D-1, mas com a perda das zonas de salto, somadas à sanguinolenta confusão que se instaurou, os Jerries transportaram os prisioneiros para uma série de locais...e recentemente, através de informantes da SOE e OSS, foram confirmadas as respectivas localizações.
Ele abriu um mapa e apontou:
- Segundo ultimas informações, o líder da resistência holandesa, está localizado nesse setor, um pouco ao norte da nossa atual posição.

- E você tem alguma foto desse tal “prisioneiro”?

- Não, apenas o sobrenome: “Murckli”...que, segundo a Intel, deverá ter detalhes sobre a localização do líder da resistência espanhola, cujo o sobrenome é “Rosa”.

- Me dê um segundo

Me afastei, chamei meus homens e expliquei a situação. Disse que não estávamos obrigados a ajudar os ingleses, pois não estávamos na mesma unidade e a nossa tarefa era diferente.

Foi aí que o Nox falou:
- Sargento, eu vim aqui para lutar contra os alemães...
Agora, se essa missão me permitir chutar os traseiros “sanguinolentos” de alguns chucrutes...pode contar comigo.

A simples fala do Nox mobilizou e “sensibilizou” o grupo. Todos, inclusive o Barnes, aceitaram em ajudar os ingleses.

Quando eu dei meia volta para comunicar ao major a nossa “democrática” decisão, ouvi uma voz conhecida a falar:

- Um momento sargento Oak!

Era o Tenente Heiss, que apareceu do nada (até agora fico imaginando como é que esse bastardo sortudo conseguiu sair inteiro daquele C-47)...me encarou bem no fundo dos olhos com um olhar sério e quando chegou perto de mim, completou:

- Se você pensa que vai levar esses 13 homens para um missão não oficial dentro do território inimigo, cercado de alemães sem me consultar antes...está enganado. Eu também quero ir.

Todos nós olhamos para o tenente como se estivéssemos nos perguntando: “Eu ouvi direito?”

E ele completou:
- Onde mais eu teria a oportunidade de “chutar o traseiro sanguinolento de alguns chucrutes”?

Rimos...sem dúvida o tenente Heiss era um oficial fora do comum. Foi tamanho o espanto que até o Barnes se deu ao luxo de rir um pouco.

O Heiss foi até o major e disse que iríamos ajudá-los.

O major explicou todo o plano:

O nome da operação britânica se chamava “Shadow Raider” (não me pergunte o porquê desse nome. Não faço a menor idéia...sem dúvida os britânicos são malucos), e consistia –se em infiltrar-se no território inimigo e resgatar os prisioneiros debaixo dos narizes dos chucrutes.

A idéia principal era fazer isso sem dar nenhum tiro, e o mais rápido possível...pois parece que os chucrutes iriam mover os prisioneiros logo.

A localização do “Murckli” estava mais ao norte, entre as cidades de Uden e Veghel, em uma localização triangulada com relação à cidade de Grave...ou seja, seria uma bela caminhada. Os ingleses tinham um plano de resgate: dois aviões Lancaster, após uma missão de bombardeio em Arnhem, iriam pousar num campo de pouso clandestino nas proximidades da mesma cidade no dia 23...a nossa carona para casa (ou seja, tínhamos 6 dias pra completar a missão).

O Tenente, então, deu ordem para seguirmos os ingleses.

Falando nos ingleses...outro que chamava muito a atenção, além do major Kelloway, era o tenente Wimbledon...um franco atirador (assim como o Toullouzzi e o Hudson), que utilizava um fuzil Lee Enfield de 10 cartuchos. Diziam que esse londrino, que mais se parecia com o ideal da raça ariana, podia acertar um nickel à uma distância de 100 metros com um tiro de fuzil...sem “scope”.

A marcha até a localização do primeiro contato não foi nada fácil. Andar por campos abertos, onde a proteção da vegetação é quase zero, com o equipamento de comunicação falhando (sendo que não havia qualquer razão aparente para tal) e com o tempo ameaçando mudar...não era nada, podemos dizer, prazeroso. Isso, sem falar que tivermos que cruzar 2 pontes, que por sorte estavam sendo protegidas por haviam pára-quedistas da 101st divisão. A rota até Veghel estava liberdada.

Um simples ruído já era motivo, mais do que suficiente, para nos atirarmos ao chão buscando qualquer tipo de abrigo.

Quando chegou o entardecer, ironicamente, chegamos aos arredores de uma fazenda. Com os binóculos, dava pra ver um celeiro e uma casa de 2 andares...e, ao redor, uma pequena cerca de madeira. Haviam algumas árvores frutíferas, bem como um poço de água e um pequeno trator.

Era possível ver também 5 homens armados com Mauser’s 98K e MP’s-40, de capacetes pretos, patrulhando o perímetro em rotas aleatórias. Provavelmente, haveriam mais dentro da casa (como bem lembrou o major Kelloway, essas casas possuem porões, cujos acessos são internos...assim, ao entrar, estaremos lidando com 3 vetores: o andar térreo, o andar superior e o inferior).

O uniforme era camuflado (com isso já podíamos descartar a hipótese de serem da Wehrmarcht...com certeza eram Waffen SS).

O tenente chamou o Capovich, o major Kelloway, o tenente Wimbledon e eu para planejarmos a incursão. De plano, decidimos esperar o anoitecer...uma incursão noturna é bem mais vantajosa, bem como posicionar o Hudson e o Wimbledon para proporcionar cobertura, caso algum chucrute nos notasse e tentasse algo.

Nos aproximaríamos pelos flancos...dessa forma, realizaríamos um movimento tipo “pinça”. Utilizaríamos nossas facas para eliminar a resistência próxima a casa (que não tinha iluminação elétrica por fora). Se tudo desse certo, pegaríamos os chucrutes com as calças arriadas. Uma vez dentro da casa, todo cuidado era pouco.

Iriam entrar: Eu, o Tenente, o Spielgman, o Osbourne, o Major, o Locke, o Klein e o Spencer. O resto do grupo iria assegurar o perímetro. Nenhum tiro, até que o prisioneiro estivesse seguro.

Foi exatamente isso que o major ressaltou: “vocês ianques esqueçam os sanguinolentos ensinamentos de Hollywood... a partir de agora silêncio total!”
Nesse quesito, eles eram os experientes...não nós.

Pois bem, assim prosseguimos. Limpar ao redor da casa foi relativamente fácil. Nada como se aproveitar da escuridão noturna, se esgueirar por entre as sobras e rasgar a garganta dos chucrutes, ou cobrir a boca deles e enterrar a faca bem no coração.

A parte difícil foi entrar na casa. Para nos ajudar, o Major conseguiu sabotar a caixa de luz. Dessa forma, prosseguiu-se escuridão total.

Quando entramos, pude ouvir os alemães falando algo como “quem foi o idiota que desligou as luzes?”, seguido de “Paulus, vá verficar!” – nessa hora, fiz um sinal para que nos escondêssemos.

Quando o suposto “Paulus” subiu pela escada do porão, avancei sobre ele e rasguei sua garganta com a minha faca.

Então, nos dividimos em 3 grupos:
- o 1º iria procurar o nosso contato no andar de cima. Ficou composto pelo: Locke, o Klein e o Spencer.
- o 2º iria procurar no presente andar. Ficou composto pelo: o Osbourne, o Major, e o Tenente Heiss.
- e por fim o 3º iria procurar no porão: o Spielgman e eu;

Levamos a operação em curso. Calma, sutileza e destreza.

Não foi difícil descer ao porão sem ser ouvido. Tinha uma escada e no final dela um porta, que estava fechada. Eu e o Spielgman nos aproximamos e podíamos ouvir os alemães conversando. Tinha 3 tipos diferentes de vozes. Logo, 3 chucrutes na sala...e provavelmente as armas não estavam próximas, o que era mais do que uma vantagem para nós.

Tive uma idéia: saquei a minha .45 e, fazendo uma voz abobada, os chamei dizendo: “Hallo, ich brauche ein wenig Hilfe hier!” (Olá, preciso de uma ajuda aqui).
Um deles se levantou e murmurou algo do tipo: “aquele paspalho é um incompetente...não consegue fazer as coisas direito!”.

Ao abrir a porta e de deparar comigo, eu o puxei e coloquei a .45, engatilhada, no pescoço dele, olhei para os outros e ordenei com um tom severo: “Kein Körper bewegen, oder ich blasé seinen Him raus! Sie, setzen Sie sich!” (Ninguém se mexe ou eu estouro os miolos dele! Você, senta aí! – essa ultima eu olhei para um dos chucrutes que estava de pé).

Mais do que imediatamente eles obedeceram. Tirei as armas daquele que eu segurava e o empurrei para perto dos outros dizendo: “Hände hinter euch, dem Gesicht zur Wand...jetzt!” (mãos atrás da cabeça e cara na parede...agora!)

Eles obedeceram e ficaram ali parados. E acrescentei: “der Erste, der sprechen wird das erste, um zu sterben! Zu verstehen?” (o primeiro a falar, será o primeiro a morrer! Entenderam?) – e eles só balançaram a cabeça positivamente.

Nisso, disse ao Spielgman para procurar o contato, enquanto eu vigiava os prisioneiros.

Do fundo ele me chamou, gritando: “Sargento, eu encontrei!”. Nisso, eu me distraí por um segundo, e um dos chucrutes resolveu reagir...e eu meti uma bala nele sem dó...bem no meio da testa.

Olhei com frieza para os outros 2, dizendo: “Jemand Anders?” (Alguém mais?). E ele apenas abaixaram a cabeça e ficaram olhando fixamente para a parece, ajoelhados e tremendo.

Logo em seguida ouvi o Major gritar, enquanto descia as escadas correndo, seguido pelos outros: “MAS QUE SANGUINOLÊNCIA É ESSA?!”
“Nada. Apenas os ossos do ofício!” – respondi.
Ele retrucou com o olhar algo do tipo “esses malditos ianques não sabem o significado do vocábulo ‘descrição’”.

Depois disso tudo, pude ouvir o Spielgman que gritava: “Alguém aí pode me ajudar, em nome de tudo o que é mais sagrado?! Tá complicado abrir essa porta!”

Deixamos alguns de guarda e fomos até lá, porém e ele acrescentou: “pode deixar, eu vou dar um jeito!”

“Dar um jeito? Que diabos ele quis dizer com isso?” – pensei. Mas não pensei muito. Ouvi depois ele gritar: “fogo no buraco!”, seguido de uma explosão.

Nisso, os 2 chucrutes começaram a rezar a oração do “Pai Nosso”. Exatamente! Começaram a rezar. Olhei para eles e pensei: “Como assim agora vocês começam a rezar?”

Enfim.

Depois da explosão, não fui eu, nem mesmo o Major, mas sim o Tenente Heiss que agarrou o Spielgman pela gola do uniforme, o encostou na parede e perguntou de uma forma um tanto sombria: “Filho...QUE DIÁBOS VOCÊ FEZ?”

Spielgman gaguejava, tentando explicar...algo como “eu t-t-ten-te-e-i...”, só que muito esquisito.

Quando fomos ver, o contato estava bem e...
Para a nossa surpresa, não era O contato, mas sim A contato. Uma mulher. Exatamente, uma mulher. Nada contra. Eu soube que os nossos aliados na frente leste têm mulheres em suas fileiras de batalha. Mas lá a história é diferente, o regime é diferente. Bom, não vou me ater a detalhes...

Mas o problema é que ela não falava a nossa língua, e pra piorar, o único que sabia falar era o mesmo que quase a matou: Spielgman.

Foi chamado para se apresentar. Ela, de olhos verdes, cabelos loiros e não muito compridos, de pele alva e face um tanto corada, o olhou como se dissesse: “Esse cara de novo?”

O Tenente apenas disse ao Spielgman: “Explique a situação para a moça...e não ferre tudo!”. Ele apenas, sem jeito, disse ao final: “Sim senhor!”.

Com a breve conversa que tivemos com a nossa ilustre convidada, descobrimos que se chamava “Ayla Murckli”, tinha seus 20/21 anos de idade e morava em Eindhoven com sua família até o dia da ocupação alemã, que destruiu tudo e os separou. Ela conseguiu escapar com o pai...onde se uniu à resistência holandesa, aprendendo à lutar contra os chucrutes.

Explicamos a ela os propósitos da missão e ela concordou em “seguir o plano” e deixar a Holanda até a liberação do país ou até o final da guerra, caso a operação Market-Garden não tivesse êxito.

Uma dica que eu deixou à você, Francis: NUNCA deixe o coldre da sua arma aberto.

Quando estávamos saindo, eu estava bem atrás dela quando chegávamos à escada. Ao ver os 2 chucrutes ali abaixados, com as mãos atrás da cabeça, ela se virou e avançou
sobre mim, puxou a minha . 45 do coldre e meteu uma bala na nuca do primeiro.
O segundo, apavorado, só teve tempo de gritar “Nicht schießen!” (não atire!), quando ela meteu uma bala em sua testa.

Todos nos entreolhamos, enquanto ela me devolvia a minha arma dizendo “dank je wel!”, que em holandês, de acordo com o Spielgman, significa “Muito Obrigada!”.
O tenente só acrescentou, olhando sarcasticamente para o Spieglman: “então é isso o que ela faz com aqueles que ‘tentam’ matá-la?! Interessante. Muito interessante. Braxton, abra o seu olho!”
E então isso virou o motivo de piada com ele. Nunca mais o deixamos se esquecer disso.

Ao final, o Major nos disse para ajuntarmos todos os corpos dos chucrutes mortos no porão e nos acomodar na casa, para passarmos a noite, ordenando, também, para que o Klein e o Spencer fossem para fora e sinalizassem para os nossos atiradores de prontidão para que se aproximassem trazendo os demais.

Mas eu preciso contar: quando o Nox soube o que aconteceu. Ele já soltou uma de suas gracinhas, assim que viu a moça: “Logo que a vi, pensei que ela seria ‘de matar’...sorte a minha é que holandesas não fazem o meu tipo, pois estaria ferrado!”. Ele é o único, depois do Tenente Heiss, que consegue extrair bom humor de situações trágicas.

Enfim, tomamos posições defensivas para o caso de alguma patrulha chucrute aparecer.

De acordo com o Major Kelloway, o segundo contato que deveríamos resgatar, de codinome “Rosa”, está entre as cidades de Uden e Grave, mais ao norte. Pelas transmissões de rádio, os “All Americans” conseguiram assegurar parte da cidade de Grave e seus arredores.

Partiremos ao amanhecer. Tentarei dormir um pouco. E por isso me despeço, até a próxima carta.



Um abraço, meu velho amigo. E não se esqueça do nosso trato.


Luke SaintJames Oak

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