Tuesday, February 24, 2009

Enfim um Descanso?

Cherburgo – 30 de Junho de 1944

Caro Francis,

Obrigado pelas notícias de casa. Você deve estar se perguntando sobre o Bearstov não é? Então, ele me disse que está bem, apesar de tudo o que esta passando em plena Normandia. Ele me disse que também enviou uma carta para você – ela deve chegar em breve.

Bom, continuando desde a ultima carta, naquela noite eu não consegui dormir. Não consegui mesmo – tentei e tentei e nada. Até que eu desisti e saí para esticar as pernas (levando a minha arma comigo, é lógico!).

Pensei em dar uma volta pela cidade, nas escuras mesmo (tínhamos 2 grupos fazendo ronda – o 1ª eram: Porter, Potter, Olivers e Ramirez; e o 2ª eram: Peterson, Toronto, Kurtwell e Allison – o esquema era rezar para que nenhum deles me confundisse com um alemão, porque senão...) . Virei em uma esquina, depois em uma ruela e quando fui perceber, estava atrás de uma casa com uma vista para um campo alagado (uma paisagem muito comum na região – parecem pântanos, mas não são). A noite estava sendo iluminada pela Lua, muito bonita por sinal. Me sentei num tronco nas proximidades e fiquei observando a paisagem, quando de repente, ouvi um ruído vindo de trás de mim – havia sido seguido? Mas por quem? E esse alguém...era amigo ou inimigo? Talvez um alemão que ficou pra trás e se escondeu? – mas que imediatamente me virei, engatilhei a minha arma e disse várias vezes em alemão: “Wer geht dort?” (Quem vem aí?) e para a minha surpresa, a resposta veio ao som de uma doce voz: “Ne lance pas! Je suis!” (Não atire! Sou eu!) – era ninguém mais que a senhorita Marie. Suspirei aliviado, pensei que poderia ser um alemão. Ela até brincou, dizendo: “Je t'ai effrayé?” (Te assustei?) e eu rindo, travei a minha arma e voltei a mesma posição que estava antes. Nisso, ela veio e sentou-se a minha esquerda.

Antes que eu pudesse falar alguma coisa, ela viu o sangue no meu uniforme e ficou assustada: “Mon Dieu ! Tu vous blessez ! Son bras... saigne!!!” (Meu Deus! Você está ferido! O seu braço...está sangrando!!!) ela dizia enquanto apalpava o meu braço. Eu senti um pouco de dor nessa hora, apesar do curativo ser novo e ter se passado algum tempo do momento que o ferimento se fez, e ela percebeu isso: “M’excuse! Fait mal très?” (Me desculpe! Está doendo muito?) e eu fiz sinal que não e ela, sorrindo, disse num tom de alívio: “Grâce a Dieu!” (Graças a Deus!). E ficamos lá conversando – ela ficava com o olhar distante, olhando para a Lua que iluminava aquele céu noturno. Havia momentos que simplesmente que parávamos e ficávamos olhando um para o outro sem dizermos uma só palavra, então voltávamos à conversa, ou arranjávamos um assunto novo – ou ela ria da cara que eu fazia (ela dizia que eu estava fazendo “cara de bobo”).

E continuamos assim, até que eu percebi que estava falando sozinho: ela havia dormido, encostada no meu braço – tão tranqüila que parecia um anjo (essa devia ser a primeira vez, em 4 anos de ocupação, que ela dormiu tranqüila). Tentando não acordá-la, eu retirei o meu braço do caminho, encostei a cabeça dela no meu peito e a abracei com o mesmo braço. E ficou assim, até que ela acordou e, ao perceber que estava encostada a mim, levantou o rosto, olhando nos meus olhos, sorri e voltou a se encostar (Admito que fiquei vermelho com isso).

Como já estava tarde da noite, eu a levei de volta para a casa dela. Ao chegar às escadas que ficavam na frente da casa dela, ela virou e me disse: “Il me pardonne si je t'ai confondu là.” (Me perdoe se eu te atrapalhei lá.) e terminando essa frase, ela retirou um crucifixo prateado que usava. Em seguida ela pegou a minha mão e colocou, delicadamente o crucifixo nela e enquanto a fechava, ela sorriu. Eu abri a minha mão para ver o presente e ela ficava me olhando, sorrindo. Agradeci e desejei boa noite e ela fez o mesmo. Ela entrou na casa dela e eu dei meia volta para voltar onde o resto do pessoal estava.

No caminho, enquanto eu colocava o crucifixo, ouvi um grito: “PARADO Aí! MÃOS NA CABEÇA!!!” – eram o 1º grupo de ronda que tinha me confundido com um alemão e que quando perceberam, disseram: “Que droga, sargento!!! A gente quase te encheu de chumbo!!!”, eu respondi: “Ah sim, e os meus olhos são ‘castanhos-azuis’!!!” e eles, assim como eu, riram.

Bom, depois dessa cena cômica, cheguei onde era o nosso “alojamento” e tentei dormir. Olha, nem sei se eu cheguei a deitar. Só me lembro que tive uns sonhos estranhos e acordei com o Nox me chamando. Assustei-me de um jeito tão grande, que me lancei pra cima dele e coloquei a .45 em seu pescoço.

Quando percebi que era ele mesmo, o próprio resolveu tirar uma com a minha cara logo cedo: “Sargento, só uma pergunta: Só porque estamos aqui, enroscados um no outro, não significa que tomaremos banho juntos ao amanhecer não é? Ou tomaremos?” – respondi a altura: “Nox, você precisa arranjar uma mulher! Isso sim!”, me levantei e começamos a rir.

Eram 6hs da manhã, e começamos a no preparar para partir. Empacotamos tudo, enchemos as cartucheiras e nossos cantis. Eu, como fazia em todas as manhãs, me ajoelhei e fiz a minha oração, o Angie se juntou a mim para o mesmo. Toullouzzi, como o bom judeu que é, fez também as suas orações.

Quando todos estavam fora, fui à frente deles, e disse: “Hoje, o nosso objetivo é chegar em Bapte. Lá, nos juntaremos ao resto da divisão 101º e 82º! Teremos 2 blindados conosco: o do Sargento Jackson e o do Sargento Riley. Portanto, ninguém morre! okay? Muito bem, vamos lá!” em seguida chamei o Capovich e dei a liderança a ele, que me perguntou onde eu ia. Respondi que tinha um assunto pessoal a tratar.

Fui até a casa da senhorita Marie – Eu precisava me despedir dela, que foi tão gentil comigo. Subi as escadas, cheguei à porta e bati. Ela atendeu e me olhou surpresa como se falasse: “Já de pé há essa hora?”, logo sorriu, como sempre fez todas às vezes, e eu sorri de volta, como sempre fiz. Então ela percebeu que eu estava carregado para ir embora e disse: “Tu dejà allez?” (Você já vai?) e balancei a cabeça positivamente. Ela tentou disfarçar um sorriso, mas eu percebi que ela segurava um pouco de choro. Então eu disse para que ela não chorasse, e tirei a minha plaqueta de identificação (Dog-Tag), a coloquei nas mãos dela, da mesma forma como ela me deu o crucifixo, e disse: “Je tournerai pour recueillir cela de retour” (Eu voltarei para pegar isso de volta). Ela sorriu (dessa vez sem forçar), me abraçou. Ao se soltar do abraço, agora em lágrimas, sorriu e disse: “J’attendrai” (Estarei esperando) e completou: “Maintenant aille parce qu'ils doivent être t'en attendre pour continuer” (Agora vá porque eles devem estar te esperando para continuar) – sorri (tentando não ser envolvido pelo momento), desci as escadas andei um pouco, me virei e a vi parada lá olhando pra mim, acenei e ela respondeu, me virei de volta e rumei para me juntar ao resto do pessoal que estava muito adiantado.

Encontrei-me com o tanque do sargento Jackson e com o resto do grupo – Frenchman me olhava de maneira estranha e eu, sempre que percebia, perguntava: “o que foi?” e ele sempre respondia: “Nada, sargento”.

Enfim, estávamos nos aproximando de Bapte por uma pequena ponte (estreita o bastante para passar um tanque de cada vez), quando um foguete de Panzefaust atingiu o caminho a nossa frente. Nessa hora não sabíamos de onde veio o disparo. Então o Angie, sabiamente, ordenou que seus homens concentrassem o fogo nos possíveis locais de disparo, enquanto o tanque do sargento Riley cruzava a ponte para conseguir um ângulo de ataque melhor.

O tanque do sargento Jackson ainda estava na ponte, mas a sua torre podia girar perfeitamente. Então eu ordenei, aos berros: “JACKSON!!! ATIRE NAQUELES ARBUSTOS ALI, POR ONDE O TANQUE DO RILEY VAI PASSAR! SE TIVERMOS SORTE, OS CHUCRUTES NÃO ATIRAM DE NOVO!!!” e ele concordou. Mirou e disparou um projétil naqueles arbustos que, quando explodiu, lançou uns 3 alemães a vários metros de distância. E começamos a avançar.

Avistei algumas casas do vilarejo e decidi em irmos naquela direção. Havia alemães escondidos naquelas casas – alguns no térreo, outros no andar superior. Ordenei que parássemos perto de um celeiro nas proximidades. Precisávamos limpar o vilarejo sem ferir os seus moradores e, em prol disso, os tanques ficaram proibidos de atirar nas edificações, mesmo se houvesse confirmado atividade hostil.

Como estávamos não muito longe da primeira casa, chamei um batedor: “Cherok, vá até aquela casa e limpe-a! Holyman vá com ele!”, e o Angie, ouvindo o que eu disse, chamou alguns dos seus: “Kurtwell, Tarket e Peterson...vão com eles!!!” - o resto de nós ficou aguardando, pois iríamos usar aquela casa como um Posto de Comando improvisado. Tudo ia muito bem até o Toullouzzi avistar um tanque Panzer III. Eu tinha certeza que aquele troço viu o grupo entrar na casa e, em virtude disso, comecei a gritar: “HEY!!! SAIAM DAÍ!!! ADEM, SAIAM LOGO!!!! TANQUE!!!!!” – dos 5 que foram enviados, 4 retornaram, levando consigo as pessoas que moravam naquela casa e o Cherok não estava com eles. Percebendo isso, gritei: “CHEROK!!!! SAIA DAÍ SEU IDIOTA DESGRAÇADO!!!! SAI LOGO!!!!!” – quando eu acabei, ele atravessou a janela do andar de cima, bem na hora que o andar foi explodido pelo disparo do tanque. Quando o Cherok caiu, ele não conseguia se levantar e eu, mais que imediatamente, corri para onde ele estava, atirando em tudo que estivesse de cinza. Angie, Holyman, Kurtwell, Peterson e Tarket foram comigo, me cobrindo.

Quando cheguei ao Cherok, ele ficava dizendo: “é a minha perna esquerda, sargento...dói muito! Dói muito!” – eu disse para os outros me cobrirem, enquanto eu e o Angie tentávamos tirá-lo de lá. Gritava: “Me ajuda Angie! Puxa o braço direito que eu puxo o esquerdo!” – e assim o arrastamos para a retaguarda enquanto o resto do grupo nos cobria.

Chegamos ao Sherman do sargento Riley e, enquanto o Doc atendia o Cherok, o Angie subiu na torre do blindado para falar com o comandante: “Riley, tem um maldito blindado alemão ali! Atrás daquela casa! Você precisa explodi-la para vê-lo!” – o Riley questionou a respeito de haverem civis, mas o Angie falava, a todo momento, que não tinha, que estava limpo, etc. Então o Riley decidiu por explodir a casa para, então, avistar e destruir o tanque. E assim o fez.

Quando aquela casa caiu, dava pra ver alguns Fallschirmjägers buscando abrigo nos prédios vizinhos e o tanque inimigo girando a torre na nossa direção. Quando esse monstro disparou, poderia jurar que vi a minha vida inteira passar diante dos meus olhos. Para a minha sorte ele errou, mas por muito pouco. Esse erro deu tempo para o Sherman do sargento Riley recarregar e atirar no Panzer alemão, que o atingiu, danificando a sua torre.

Com o Panzer parcialmente inoperante, eu consegui avistar alguns alemães recuando. Provavelmente eles recuavam em direção da igreja. E, também, provavelmente eles tinham mais blindados na área. Mas não deu tempo para pensar, já que a metralhadora do tanque abriu fogo contra o Sherman e o nosso grupo que estava, literalmente, encurralado atrás. Nisso, chegou o Sherman do sargento Jackson que disparou o seu canhão diretamente na parte frontal do Panzer, destruindo a metralhadora, matando seus ocupantes.

Com esse alívio, me virei para o Doc e perguntei como o Cherok estava e ele respondeu: “Bem sargento! Se pode assim dizer...ele quebrou a perna em duas partes: no fêmur e perto do tornozelo. Ele vai voltar para casa”. Tendo ouvido isso, ordenei ao Wisbowski que enviasse uma transmissão ao hospital de campo para que enviassem um jipe médico. Esperamos o jipe chegar, nos despedimos do Cherok e continuamos.

Começamos a avançar sendo liderados pelo Sherman do Sargento Riley pela rua principal e não demorou muito para sermos encurralados por uma metralhadora alemã e um canhão de rua. Gritávamos: “CUIDADO, SAIAM DA MALDITA RUA!!!!!”. Quem se protegeu do lado esquerdo da rua, ficou completamente encurralado, mas quem se protegeu do lado direito, dava pra flanquear a posição alemã – eu fui um dos que se protegeu do lado direito, juntamente com o Topak, O’Brian, Judas, Tritton, Teddy, Lou, Angie e Peterson.

Com aquele canhão de rua lá, os tanques não poderiam avançar mais, tinham que se protegerem também. Então nós, os sortudos, mais que rapidamente rumamos para flanquear a posição alemã. O Angie liderou essa investida. Só conseguíamos ouvir os disparos ensurdecedores da MG-42 alemã...rajadas quase que intermitentes, vindas de uma janela do 2º andar de um prédio que estava no final da rua.

Ao chegarmos no flanco do canhão, matamos todos os chucrutes que o defendiam e o explodimos com uma granada. Em seguida o O’Brian gritou para quem estava perto do tanque do sargento Riley: “CANHÃO FORA!!!! CANHÃO FORA!!!!” – nisso, avisaram o sargento Riley que começou a avançar com o tanque. A metralhadora alemã começou a atirar no tanque de maneira incessante, tentado pará-lo a qualquer custo. O que foi inútil. Quando o tanque disparou, a janela inteira foi vaporizada.

Continuamos a avançar em direção da igreja de Bapte – é incrível como toda a ação se concentra perto das igrejas (parece que a briga não é pelas cidades, mas sim pelas igrejas). Era possível ver os alemães correndo de um lado a outro, buscando abrigo (e atirando na gente também!). Como tínhamos 2 tanques, eles iam na frente e nós íamos atrás, no abrigando. A luta por Bapte foi intensa! Os Chucrutes não queriam deixar o vilarejo “pacificamente” (o que na linguagem da Airbourne significa: rendição incondicional).

Tomamos casa a casa. Desta vez não usamos granadas, pois tinha uma maior concentração de civis na área – só usávamos “brutalidade excessiva” quando o que atirava em nós, ou fosse uma metralhadora, ou fosse alguma arma antitanque (como um canhão de rua). No fim do dia tomamos o vilarejo, mas continuamos a avançar para chegarmos no nosso objetivo principal: Saint Sauveur.

A nossa investida em Bapte empurrou os alemães até as redondezas, numa região onde havia uma grande concentração de cercas vivas. Não perseguimos os chucrutes até essa região. Quem cuidou dessa tarefa foram os rapazes do grupamento 16 da Companhia Fox – Sargentos Mathews Baker e Joe Hartsock, se não me engano.

Enfim. A nossa tarefa agora era rumar até Saint Sauveur que, do francês, significa “Santo Salvador”. É irônico como muitas das cidades em que lutamos têm nomes de santificações da igreja católica, e essas mesmas cidades foram palcos e testemunhas da maior brutalidade que a humanidade conhece: a guerra.

No caminho até essa cidade, encontramos bastante resistência dos chucrutes, mas não tivemos baixas. Eles tinham posicionado Flaks 36 (vulgas ‘88’) para nos parar, o que não aconteceu.

Ao adentrarmos na cidade, o lugar todo estava em ruínas. Podíamos ver veículos aliados e alemães destruídos por todo o lugar! Havia corpos de pára-quedistas mortos, em estado de decomposição avançada (o cheiro era insuportável) e para piorar: começou a chover! Exatamente, começou a chover! E uma bela chuva!

Com isso, abrimos a formação, mantivemos um intervalo bem grande entre cada um de nós (a essa altura éramos 25 soldados), para que não fossemos um prato cheio na mão dos nazistas.

Naquela chuva, não víamos nada, então paramos num lugar aparentemente seguro. Lancei a seguinte pergunta: “para onde iremos?” – O Angie respondeu na hora: “para onde mais? Vamos para a igreja!”. Percebendo a ironia da resposta, rimos um pouco, mas depois ficamos sérios novamente.

Então seguimos a rua mesmo. Ficamos alertas todo o tempo, ainda mais com aquela chuva que parecia que era o dilúvio Bíblico. Mas o pior não era isso. O pior era a cena de destruição que havia ao redor: carros, árvores, prédios e tudo o mais destruído. Isso somado ao som de combate longínquo (tiros, explosões e gritos em inglês, alemão e francês).

Passamos várias ruas e nada de combate. Nisso o Angie me alcança e fala: “Oak, será que nós estamos indo em direção a uma armadilha? Porque ao mesmo tempo que parece que este lugar está deserto, tenho o pressentimento de que algo ruim vai acontecer!”

Chegamos a uma esquina que dava para uma praça a nossa esquerda e a direita dessa praça, seguindo a rua, tinha uma vala (que mais parecia uma trincheira) que dava para uma descida até uma outra edificação. Como o Fox estava junto de mim, ordenei a ele que olhasse, cautelosamente, para ver se tinha atividade inimiga. Ele o fez e reportou: “Sargento, eu não vejo nada! Se há algum inimigo lá, eu não consigo vê-lo daqui!”. Chamei o Angie e concordamos em dividir o grupo para poder prosseguir (fizemos 04 grupos). O primeiro grupo era: Eu, Nox, Fox, Topak, Holyman e O’Brian; o segundo era: Capovich, Frenchman, Porter, Potter, Olivers, Ramirez e Wisbowski; o terceiro grupo era: Angie, Taylor, Tritton, Lunnis e Lou; e o quarto grupo era: Tomasso, Toullouzzi, Peterson, Thor, Stan e Tarket.

Com a divisão feita, nos preparamos para cruzar o trecho aberto. Decidimos que seria um grupo por vez, mas como eu tinha dado essa idéia, o meu foi o primeiro. Só te digo uma coisa: corri pra burro! Mas chegamos em segurança do outro lado. O próximo grupo foi o do Angie, que chegou bem mais rápido que o meu. Em seguida foi o grupo do Tomasso, mas aí começou um inferno: disparos de metralhadoras alemãs, seguidas por disparos de “88” começaram. Foi tamanha a confusão que alguns dos pára-quedistas correram até a vala para se protegerem, sem falar que o grupo do Capovich começou a correr de forma completamente desesperada.

Lembro que eu e o Angie ficávamos gritando: “FOGO DE COBERTURA!!!! VOLTEM!!! VOLTEM!!!!”. Gritamos a plenos pulmões, ao mesmo tempo em que atirávamos na direção do fogo inimigo.

Foi quando eu vi um ser humano ser desintegrado pelo disparo de uma “88”: era o cabo Adrian Peterson. Morreu de uma forma tão bruta e absurda. A única coisa que sobrou dele, e estava parcialmente intacta, era o seu capacete...que foi lançado na nossa direção com a força da explosão. Não deu tempo de lamentar ou pensar em outra coisa: outro disparo de “88” caiu perto do Wisbowski que, atingido pela explosão, caiu no chão já gritando de dor. Gritei por “COBERTURA”, chamei o Nox e fomos lá tentar salvá-lo. Ao chegarmos lá, o operador do rádio estava no chão se re-contorcendo enquanto gritava: “TIRA ISSO DE MIM! TIRA ISSO DE MIM! TÁ QUEIMANDO!!! TÁ QUEIMANDO!!!!” – era o rádio que tinha sido atingido. Mais que depressa cortamos as alças do rádio e arrastamos o Wisbowski pra um lugar seguro.

Corremos até a vala e de lá começamos a trocar tiros com os alemães que estavam nos atacando do outro lado da praça. Só dava para ouvir os tiros das nossas armas, os zunidos dos tiros das armas dos alemães e as explosões dos impactos dos projeteis de “88”. Pensar tornou-se impossível. E pra piorar a situação, começou uma saraivada de explosões de morteiros – provavelmente havia uma equipe de observação próxima.

Com a nossa situação piorando a cada minuto que se passava, precisávamos de apoio aéreo. Chamei o Toullouzzi, já que ele era um franco-atirador e perguntei a ele: “Daqui onde nós estamos, onde você estaria para nos ver perfeitamente sem ser notado?”, e ele, cuidadosamente, olhou ao redor dele e ao ver uma casa amarela de 2 andares, relativamente distante da nossa posição, disse: “Lá sargento! Seria lá que eu estaria!”. No mesmo instante eu chamei o Capovich e o ordenei, juntamente com o seu grupo (Frenchman, Porter, Potter, Olivers e Ramirez), a avançar até a dita casa que o Toullouzzi desconfiou e tomá-la.

O Capovich me perguntou o porque dessa manobra e eu respondi: “Segundo o Toullouzzi, pode haver uma equipe de rádio nazista lá. Se ele estiver certo, vocês terão que ‘pedir emprestado’ o rádio para chamar apoio aéreo” – ele sorriu, um sinal de que entendeu claramente o que eu quis dizer, enquanto Toullouzzi passava as coordenadas num pedaço de papel para ele.

Antes de começarem a correr, gritei: “FOGO DE COBERTURA!!!!!!” e começamos a atirar nos alemães que estavam nos atacando da praça, para mantê-los abaixados para que o Capovich e seu grupo pudessem avançar. Só sei que eles conseguiram chegar na bendita casa sem problemas. Agora só nos restava esperar e continuar atirando nos alemães para mantê-los lá.

Eu já passei por muita coisa ruim Francis, você bem lembra de quando estávamos na Sicília e, nesse meio tempo, eu aprendi mais do que ninguém o que a pressão física e psicológica pode fazer com o mais sóbrio e sensato dos seres humanos. Digo isso que foi só o Capovich adentrar a casa e, tendo sucesso em tomá-la, fazer um sinal pela janela, que o Angie saiu da vala e começou a correr em direção dos alemães, como um louco, enquanto disparava a sua arma numa fúria quase que sobre-humana. Ele gritava: “MALDITOS!!! EU VOU MATAR TODOS VOCÊS SEUS VERMES MISERÁVEIS!!! CÃES SARNENTOS MALDITOS!!!”. Corri atrás dele para tentar impedir que ele, envolvido nessa loucura, se matasse.

Ao alcançá-lo, o puxei para um abrigo, mas mesmo assim ele não parava de atirar e praguejar. Eu entendia a dor dele: em 10 dias de combate, ele só viu morte, angústia, tristeza, horror e sangue. Isso me lembra o que um sargento da 101st disse: “Como um homem pode se concentrar na vida se tudo o que ele vê é morte?”.

Ao acalmá-lo, começamos a lutar, literalmente, por nossas vidas. A coisa ficou desesperadora quando o Angie gritou: “PANZER!!! PANZER!!!”. Essa foi uma das raras vezes que eu realmente pensei que iria morrer. Já via como aquele monstro de metal arrancaria as vidas dos nossos corpos. Mas mesmo em meio aquele desespero momentâneo, não paramos de atirar e começamos a correr para o prédio mais próximo que tivesse uma porta aberta.

Foi bem no meio dessa correria que eu senti um impacto de uma explosão, que me derrubou no chão. Ao virar para trás eu vi aquele mesmo tanque destruído e em chamas, e guiado pelo som, vi um P-51 Mustang, um caça da nossa Força Aérea e vi que nele estava pintado o número “777” e na mesma hora eu disse: “Esse aí é sortudo! Tinha que ser 777”. O Angie na mesma hora me olhou espantado, como que não acreditasse no que tinha acabado de ouvir, de tal maneira que me pediu para que eu confirmasse o número e quando o fiz, ele disse com um entusiasmo contagiante: “Eu sabia! Eu sabia! Tinha que ser ele mesmo!”. Quando perguntei que era, ele disse: “É o meu irmão!”. Isso me pegou de surpresa. O Angie nunca tinha me falado que tinha um irmão e que ele estava servindo na Força Aérea. Mas só sei que ele nos salvou mesmo pois quando a fumaça abaixou, vimos que eram 3 tanques Panzer e 2 canhões de Flak 36, que estavam todos destruídos, juntamente com os alemães que os operavam.

Enquanto tomávamos um ar, depois desse combate feroz, vimos um grupo de alemães vindo até nós, de mãos levantadas. Estavam se rendendo. O Nox chegou bem a tempo de soltar um dos seus comentários: “é isso o que eu chamo de uma bela visão pacífica”, o que nos rendeu boas risadas. O resto do pessoal se reagrupou a nós e então desarmamos os alemães. Enquanto fazíamos isso, chegaram alguns caminhões aliados trazendo mais soldados e oficiais, juntamente com tanques e equipes médicas que levaram o Wisbowski para ser atendido – segundo eles, ele sofreu algumas queimaduras, mas ficará bem, assim como o Cherok, que tinha quebrado a perna em Bapte. Era isso: Tomamos Saint Sauveur!!!

Seria esse um descanso? O nosso tão merecido e desejado descanso? Não! Não seria ainda. Todos nós sabíamos que só iríamos descansar quando os alemães se rendessem completamente...o que, com certeza, ocorreria quando estivermos em Berlim, no coração da pátria alemã.

Isso tudo aconteceu no dia 16 de Junho. Cinco dias depois formos enviados as redondezas de Cherburgo. Mas desta vez fomos divididos das divisões. Isso, para ser sincero, me doeu um pouco porque nós nos unimos tanto nos momentos de angústia que eu não via mais divisas, mas sim irmãos. Tanto que eu senti, como ainda sinto, as mortes de todos, sejam eles da 82nd ou da 101st.

Cherburgo não foi um mar de rosas. Bom, essa cidade era portuária e precisávamos dela para desembarcar suprimentos. Soube que até os pára-quedistas ingleses da 6ª Divisão Aerotransportada estavam lá lutando ao nosso lado.

Lá a nossa missão era apenas de suporte. O Exército é que ficou encarregado de tomar a cidade. A rendição alemã em Cherburgo se deu hoje: 30 de Junho de 1944 – este foi o fim da Operação Netuno. Nós todos tivemos um verdadeiro descanso. Mas sinceramente, parece que a vitória se tornou embaçada pelos rostos daqueles que morreram ao nosso lado em 24 dias de combate.

Estão dizendo que teremos 2 meses de descanso na Inglaterra e, enquanto isso, o General Patton se dirige até Paris. Muitos ficaram tristes por não estar lá para participar da liberação da “Cidade Luz”. Mas acredito que, se não descansássemos, enlouqueceríamos. Ainda iria demorar até Paris ser retomada, sem falar que já completamos a nossa missão.

Então é isso Francis, próxima parada: Inglaterra. Camas macias e quentes, refeição quente e chuveiro quente. Até parece um sonho que se realiza. E nós todos, os 24 sobreviventes da batalha de Saint Sauveur iríamos desfrutar. Espero que eu encontre aqueles que ao lado lutei em Carentan e na Colina 30 lá também. Teremos muitas histórias para contar.

Muito bem Francis, aqui eu me despeço, mas te digo que não será a ultima carta que receberás de mim. Não mesmo! Se DEUS quiser, não será!

Diga a mamãe e papai que eu estou bem e que logo logo, se DEUS assim o permitir eu estarei em casa. Mandarei mais notícias assim que possível.

Fique com DEUS me amigo. E continue orando por mim!

Um grande abraço. Do seu amigo

Luke SaintJames Oak

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Ufa! Finalmente o Capítulo 8 saiu ^^"""
Desculpem a demora...quando a falta de inspiração bate é fogo ¬¬"""

mas espero que gostem!!!

Fiquem todos com DEUS
abraços

DTA

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