Sunday, March 04, 2012

Blefando

Arredores de Uden e Veghel, 17 de Setembro de 1944



Caro Francis



Fico feliz que está tudo bem aí. Mas me diga: quando, afinal de contas, você voltará para o conflito? Lembro que você tinha quebrado a perna. Ela já melhorou?

Eu tenho uma língua abençoada, com certeza. Simplesmente porque quando eu falo “algo grande vai acontecer” sempre acontece. É incrível!

Digo isso, pois hoje voltamos a combater. Dessa vez na Holanda ocupada. Deram o nome da operação de “Operação Market-Garden”, que se consiste basicamente em criar um ‘corredor’ para as forças aliadas até a Alemanha, evitando assim a linha Siegfried e dando a chance de essa guerra terminar antes do natal (que pretendo passar em casa). Mas ainda permaneceremos, em parte, com o mesmo plano de 6 de junho: capturar estradas, encruzilhadas, vilas e pontes em especial. A inteligência nos disse que não haveria muita resistência, pois o Wehrmarcht estaria concentrando as suas forças mais na frente russa. Mais um plano dos ingleses.

Cada uma das divisões Airborne ficou encarregada de assegurar um setor:

82nd “All Americans” – cidades de Grave e Nijmegen e suas pontes;
101st “Screaming Eagles” – cidade de Eindhoven e suas pontes e arredores;
1st “Red Devils” – cidade de Arnhem e sua ponte e arredores (britânicos).

Pelo menos os britânicos iriam se expor mais, saltando a 75 milhas dentro do território inimigo. Nós só iríamos saltar por volta de 35 a 45 kilometros.

Ao contrário dos saltos noturnos na Itália e na França, esse foi diurno.

Dessa vez nós levamos pouco equipamento comparado ao nosso “carregamento” em 6 de junho, pois nos foi dito que receberíamos apoio de blindados ingleses.

Admito que até me senti bem quando entrei no avião novamente...sei lá, parece que estava voltando pra casa, ou algo do tipo...muito estranho na verdade.

Bom...o grupo ficou sendo esse:

Ten. Howard Hughes “Hug” Heiss
1º Sgt. Luke SaintJames Oak
Cb. Nelson “Nox” Oxford
Cb. James Fox
Sld. Joe Topak
Sgt. John Capovich
Sld. Joshua O’Brian
Sld. Claude “Frenchman” Anderson
Sld. Bill “Judas” Juda
Cb. Braxton Spielgman
Cb. Viktor “Bonner” Bonnerius
Sld. Ruiz Constino
Spc. Ross “Al” Hudson
Sld. James “Oz” Osbourne
Sld. Leon De’Loren

Mais uma vez, iríamos descer dos céus atacando impiedosamente o inimigo, como as águias dos bordados dos nossos uniformes, símbolos da nossa divisão: A 101st.

Já no avião, a Inteligência Militar passou a ser conhecida como ‘Burrice Militar’. Isso porque haviam mais baterias anti-aéreas na Holanda do que em Bremen, no meio da Alemanha.

Olhando para fora dava pra ver alguns aviões sendo atingidos. Literalmente, os ossos do maldito ofício!

A luz vermelha acendeu e o Tenente Heiss se levantou e, gesticulando, gritou:

-“DE PÉ!!!” – nos levantamos

- “ENGATAR!!!” – engatamos o cabo do pára-quedas principal para saltarmos.

- “CHECAR EQUIPAMENTO!!!” – começamos a chegar e averiguar se o equipamento estava bem preso.

- “SOAR CHECAGEM!!!” – começamos a falar o nosso número e em seguida ‘ok’, para dizer que o equipamento estava certo.

Mas o tenente fez em seguida, algo que eu não esperava...aliás, o que ninguém do grupo esperava. Ele simplesmente virou para nós e gritou:

- “EM QUEM O EXÉRCITO CONFIA MAIS?”

Respondemos: “AIRBORNE!”

- “QUEM AS GAROTAS GOSTAM MAIS?”

Respondemos: “AIRBORNE!”

- “QUEM OS NAZISTAS TEMEM MAIS???”

Respondemos: “AIRBORNE!”

Nessa hora a luz verde acendeu e ele gritava enquanto saltávamos, com um entusiasmo e com uma sensação incrível de ‘invencibilidade’: “VÃO, VÃO, VÃO, VÃO!!!!”

Não ligávamos para a artilharia anti-aérea...simplesmente nos sentíamos invencíveis...como se pudéssemos, naquele instante, chegar até Berlin e pegar aquele tão sonhado “ticket” para casa!

Como sempre, não foi uma aterrissagem muito confortável. Eu atravessei o telhado de uma casa chegando ao sótão. Malditas telhas. Só pude ouvir gritos dos alemães vindos do andar de baixo. Imediatamente eu soltei o pára-quedas, tirei a bóia e peguei a minha Thompson.

Procurei um jeito de descer de lá. Por sorte tinha uma escada. Em seguida ouvi mais gritos, vindo dos alemães, seguidos de tiros. Pelos sons eram tiros de ambos os lados: Pára-quedistas e alemães.

Fui descendo as escadas, apontando a minha arma no caminho. Mas não demorou muito e um chucrute apareceu do nada. Só tive tempo de puxar o gatinho, nem pensei se havia outro deles por perto.

Depois disso eu escutei algo como: “Achtung! Feind im Haus!” (Cuidado! Inimigo dentro da casa!), seguido de: “Jagd auf ihn! Los! Los! Los!” (Peguem ele! Vão! Vão! Vão!).

Antes que eu pudesse pensar em algo, outro pára-quedista atravessou o teto, ficando pendurado. Esse era o soldado Jeremy Barnes do 501st. Assim que ele fez essa ‘aparição’ eu logo perguntei: “Tudo bem, filho?” e ele respondeu: “Tô sim, sargento! Me ajude a descer, rápido! Tem chucrutes por toda a parte!”
Consegui descê-lo e em seguida ele pegou sua arma, um BAR e seguimos pela casa. Não demorou muito e encontramos mais alemães e começou aquele tiroteio infernal.

O Barnes tinha um rádio, então dava para saber a situação do resto da divisão, bem como a 82nd, que a sua maioria tinha saltado bem no meio de Nijmegen e estavam sofrendo com o fogo cerrado.

Mas nós da 101st também estávamos com problemas e tínhamos que nos concentrar. Eles têm o trabalho deles e nós temos o nosso.

No meio disso tudo eu pude ouvir os alemães gritando: “wir verlieren an Boden! zurück!” (Nós estamos sucumbindo! Recuar!). Só que eles recuaram exatamente para a posição onde estavam o Barnes e eu. Foi como atirar em um estande...ninguém sobreviveu.

Depois que o últimos dos inimigos caiu, eu escutei aquela voz de comediante: “Uhuul! Eu adoro o cheio de pólvora pela manhã!” era ninguém mais ninguém menos que aquele piadista do Nox. O mais incrível é que ninguém que estava no meu C-47 foi morto ou ferido em combate! Muito menos os novatos.

Logo que reencontrei o grupo, perguntei onde estava o tenente. Mas ninguém sabia onde ele estava. O Spielgman disse que viu o C-47 ser abatido, mas não viu o pára-quedas do tenente.

E perguntei logo em seguida: “Alguém sabe onde diabos nós estamos?” e quem respondeu essa pergunta foi o Barnes: “Estamos próximos a Best, que fica a noroeste de Eindhoven. E não, não perdemos a zona de salto sargento!”

E ele completou: “Alguém aqui viu o cabo Alex Rico, do meu regimento?”

“Não” – essa foi a resposta geral. Provavelmente porque o cabo Rico deve ter se separado do resto do seu grupo ou já deve ter se afastado da zona de salto.

Para ver como as coisas são: Na Normandia, o problema era e sempre foi o salto noturno...e na Holanda...bom, na Holanda continuou o mesmo caos que envolve qualquer operação militar: o erro humano.

As vezes eu me pergunto: Por que diabos eu queria ser um pára-quedista?
Mas aí eu lembro: para lutar contra a tirania!

Poético, eu sei...mas é a verdade...pelo menos pra mim.

Bom, deixa eu voltar pra aquela casa em Best.

Juntamos aquele grupo e dividimos o comando entre o Capovich e eu, apenas para facilitar a coordenação.

Rumamos para o sudeste, em direção à EindHoven...e para nos reagruparmos com o resto da 101st Divisão.
O mais engraçado é que, caminhando por aqueles campos...não me sentia participando de uma grande operação de guerra...parecia mais uma cena de filme, com toda aquela paisagem serena, do que uma zona de conflito.

Imagine a cena, Francis: campos floridos, pássaros cantando, céu azul com poucas nuvens...a perfeição para me encontrar com a Marie, por exemplo.

Era onde morava o perigo...não estávamos com 100% da nossa atenção...um erro seria fatal.

Mas a nossa falta de atenção chegara ao fim quando, ao chegarmos perto de um moinho de vento, vimos o corpo já tem vida de um pára-quedista da 101st pendurado em uma das pás.

Era do cabo Alex Rico...quem o Barnes procurava. Tinha algumas perfurações de flak no peito...provavelmente fora ferido enquanto descia e fora morrer antes de ficar preso no moinho.

Barnes ficou paralisado ao ver aquela cena...não podia acreditar que o amigo, com quem servira na França e por quem tinha tremenda afinidade, estava morto e pendurado como se fosse um pedaço de carne.

Ele queria subir lá e descê-lo, mas não permiti...se houvessem atiradores por perto, eu estaria fechando os olhos de 2 pára-quedistas. Paramos e o consolamos um pouco.

Foi quando de repente ouvimos um estalo no flanco direito da nossa formação...perto de uns arbustos. Consolidamos nossas posições e apontamos nossas as armas para aquela direção.

Ouvimos, em seguida, uma voz que dizia com um sotaque escocês bem típico:
“Vocês ianques sanguinolentos são mais escandalosos que um bebê recém nascido...ouvimos vocês há quase 1 km daqui...e poderíamos acertá-los na mais completa escuridão!”

Quando fomos perceber...estávamos cercados de “Red Devil’s”, ou que pelo menos aparentavam ser.

Vestiam uniforme padrão camuflado, coturnos marrons, e boinas vermelhas: Eram pára-quedistas ingleses...mais precisamente da 22nd Divisão dos Serviços Aéreos Especiais (ou SAS), notei por causa da insígnia na boina...que era diferente das dos Red Devil’s.

Eram ao todo 7 homens, que eram liderados por um major, que mantinham um padrão tão rigoroso que era quase impossível distinguir um do outro.

Esses ingleses são esquisitos...nunca consegui entendê-los...nunca!

O mais esquisito de todos era, sem dúvida alguma, o major: Se chamava James Kelloway. Era um escocês ruivo que usava um bigode que o deixava com uma aparência, podemos dizer, um tanto suspeita.

Que droga, esse escocês dizia que nós “ianques” éramos escandalosos...mas aquele cabelo ruivo dele era tão chamativo que poderia dizimar um grupamento inteiro se um observador inimigo o avistasse (o que não seria muito difícil de acontecer).

Mas, voltando aos ingleses, os 8 SAS eram:
Mj. James Kelloway
Ten. Elliot Wimbledon
Sgt. Frederick Johnson
Cb. Alfred Wilkings
Cb. Armand Klein
Cb. Wilfrey Donald
Spc. Kenny Locke
Sld. Carl Spencer

Eles haviam servido na França, como a maioria de nós. Mas, também, haviam estado na Itália e no Norte da África, na luta contra os Afrika-Corps de Rommel.

Viram o mesmo horror...lutaram contra o mesmo inimigo...

Enfim, derramamos o mesmo sangue na mesma lama.

Ele perguntou quem estava no comando, e logo me destaquei...sendo que o tenente estava desaparecido, desde o salto.

Admito que me surpreendeu quando o major pediu a nós “ianques” ajuda para uma “missão secreta”.
Disse que já tínhamos a nossa missão e que era tão importante quanto a deles...mas algo que o major me disse em seguida, chamou a minha atenção...
Ele havia dito: “Essa missão é de suma importância para a guerra, sargento...não se baseia em atacar e destruir um alvo específico, mas sim está focada em informações para a inteligência militar do nosso alto comando aliado!”

Era a primeira vez que tinha ouvido falar sobre algo do tipo: mandar um grupo de soldados colher informações...mas não como uma tropa de reconhecimento.

Pedi alguns detalhes, e o major assim me explicou:

- Sargento, assim que decolamos da Inglaterra, recebemos a missão de resgatar 2 líderes de células da resistência: um da resistência espanhola e outro da resistência holandesa, que foram capturados há alguns anos.
Essa missão de resgate, por assim dizer, deveria ter ocorrido em D-1, mas com a perda das zonas de salto, somadas à sanguinolenta confusão que se instaurou, os Jerries transportaram os prisioneiros para uma série de locais...e recentemente, através de informantes da SOE e OSS, foram confirmadas as respectivas localizações.
Ele abriu um mapa e apontou:
- Segundo ultimas informações, o líder da resistência holandesa, está localizado nesse setor, um pouco ao norte da nossa atual posição.

- E você tem alguma foto desse tal “prisioneiro”?

- Não, apenas o sobrenome: “Murckli”...que, segundo a Intel, deverá ter detalhes sobre a localização do líder da resistência espanhola, cujo o sobrenome é “Rosa”.

- Me dê um segundo

Me afastei, chamei meus homens e expliquei a situação. Disse que não estávamos obrigados a ajudar os ingleses, pois não estávamos na mesma unidade e a nossa tarefa era diferente.

Foi aí que o Nox falou:
- Sargento, eu vim aqui para lutar contra os alemães...
Agora, se essa missão me permitir chutar os traseiros “sanguinolentos” de alguns chucrutes...pode contar comigo.

A simples fala do Nox mobilizou e “sensibilizou” o grupo. Todos, inclusive o Barnes, aceitaram em ajudar os ingleses.

Quando eu dei meia volta para comunicar ao major a nossa “democrática” decisão, ouvi uma voz conhecida a falar:

- Um momento sargento Oak!

Era o Tenente Heiss, que apareceu do nada (até agora fico imaginando como é que esse bastardo sortudo conseguiu sair inteiro daquele C-47)...me encarou bem no fundo dos olhos com um olhar sério e quando chegou perto de mim, completou:

- Se você pensa que vai levar esses 13 homens para um missão não oficial dentro do território inimigo, cercado de alemães sem me consultar antes...está enganado. Eu também quero ir.

Todos nós olhamos para o tenente como se estivéssemos nos perguntando: “Eu ouvi direito?”

E ele completou:
- Onde mais eu teria a oportunidade de “chutar o traseiro sanguinolento de alguns chucrutes”?

Rimos...sem dúvida o tenente Heiss era um oficial fora do comum. Foi tamanho o espanto que até o Barnes se deu ao luxo de rir um pouco.

O Heiss foi até o major e disse que iríamos ajudá-los.

O major explicou todo o plano:

O nome da operação britânica se chamava “Shadow Raider” (não me pergunte o porquê desse nome. Não faço a menor idéia...sem dúvida os britânicos são malucos), e consistia –se em infiltrar-se no território inimigo e resgatar os prisioneiros debaixo dos narizes dos chucrutes.

A idéia principal era fazer isso sem dar nenhum tiro, e o mais rápido possível...pois parece que os chucrutes iriam mover os prisioneiros logo.

A localização do “Murckli” estava mais ao norte, entre as cidades de Uden e Veghel, em uma localização triangulada com relação à cidade de Grave...ou seja, seria uma bela caminhada. Os ingleses tinham um plano de resgate: dois aviões Lancaster, após uma missão de bombardeio em Arnhem, iriam pousar num campo de pouso clandestino nas proximidades da mesma cidade no dia 23...a nossa carona para casa (ou seja, tínhamos 6 dias pra completar a missão).

O Tenente, então, deu ordem para seguirmos os ingleses.

Falando nos ingleses...outro que chamava muito a atenção, além do major Kelloway, era o tenente Wimbledon...um franco atirador (assim como o Toullouzzi e o Hudson), que utilizava um fuzil Lee Enfield de 10 cartuchos. Diziam que esse londrino, que mais se parecia com o ideal da raça ariana, podia acertar um nickel à uma distância de 100 metros com um tiro de fuzil...sem “scope”.

A marcha até a localização do primeiro contato não foi nada fácil. Andar por campos abertos, onde a proteção da vegetação é quase zero, com o equipamento de comunicação falhando (sendo que não havia qualquer razão aparente para tal) e com o tempo ameaçando mudar...não era nada, podemos dizer, prazeroso. Isso, sem falar que tivermos que cruzar 2 pontes, que por sorte estavam sendo protegidas por haviam pára-quedistas da 101st divisão. A rota até Veghel estava liberdada.

Um simples ruído já era motivo, mais do que suficiente, para nos atirarmos ao chão buscando qualquer tipo de abrigo.

Quando chegou o entardecer, ironicamente, chegamos aos arredores de uma fazenda. Com os binóculos, dava pra ver um celeiro e uma casa de 2 andares...e, ao redor, uma pequena cerca de madeira. Haviam algumas árvores frutíferas, bem como um poço de água e um pequeno trator.

Era possível ver também 5 homens armados com Mauser’s 98K e MP’s-40, de capacetes pretos, patrulhando o perímetro em rotas aleatórias. Provavelmente, haveriam mais dentro da casa (como bem lembrou o major Kelloway, essas casas possuem porões, cujos acessos são internos...assim, ao entrar, estaremos lidando com 3 vetores: o andar térreo, o andar superior e o inferior).

O uniforme era camuflado (com isso já podíamos descartar a hipótese de serem da Wehrmarcht...com certeza eram Waffen SS).

O tenente chamou o Capovich, o major Kelloway, o tenente Wimbledon e eu para planejarmos a incursão. De plano, decidimos esperar o anoitecer...uma incursão noturna é bem mais vantajosa, bem como posicionar o Hudson e o Wimbledon para proporcionar cobertura, caso algum chucrute nos notasse e tentasse algo.

Nos aproximaríamos pelos flancos...dessa forma, realizaríamos um movimento tipo “pinça”. Utilizaríamos nossas facas para eliminar a resistência próxima a casa (que não tinha iluminação elétrica por fora). Se tudo desse certo, pegaríamos os chucrutes com as calças arriadas. Uma vez dentro da casa, todo cuidado era pouco.

Iriam entrar: Eu, o Tenente, o Spielgman, o Osbourne, o Major, o Locke, o Klein e o Spencer. O resto do grupo iria assegurar o perímetro. Nenhum tiro, até que o prisioneiro estivesse seguro.

Foi exatamente isso que o major ressaltou: “vocês ianques esqueçam os sanguinolentos ensinamentos de Hollywood... a partir de agora silêncio total!”
Nesse quesito, eles eram os experientes...não nós.

Pois bem, assim prosseguimos. Limpar ao redor da casa foi relativamente fácil. Nada como se aproveitar da escuridão noturna, se esgueirar por entre as sobras e rasgar a garganta dos chucrutes, ou cobrir a boca deles e enterrar a faca bem no coração.

A parte difícil foi entrar na casa. Para nos ajudar, o Major conseguiu sabotar a caixa de luz. Dessa forma, prosseguiu-se escuridão total.

Quando entramos, pude ouvir os alemães falando algo como “quem foi o idiota que desligou as luzes?”, seguido de “Paulus, vá verficar!” – nessa hora, fiz um sinal para que nos escondêssemos.

Quando o suposto “Paulus” subiu pela escada do porão, avancei sobre ele e rasguei sua garganta com a minha faca.

Então, nos dividimos em 3 grupos:
- o 1º iria procurar o nosso contato no andar de cima. Ficou composto pelo: Locke, o Klein e o Spencer.
- o 2º iria procurar no presente andar. Ficou composto pelo: o Osbourne, o Major, e o Tenente Heiss.
- e por fim o 3º iria procurar no porão: o Spielgman e eu;

Levamos a operação em curso. Calma, sutileza e destreza.

Não foi difícil descer ao porão sem ser ouvido. Tinha uma escada e no final dela um porta, que estava fechada. Eu e o Spielgman nos aproximamos e podíamos ouvir os alemães conversando. Tinha 3 tipos diferentes de vozes. Logo, 3 chucrutes na sala...e provavelmente as armas não estavam próximas, o que era mais do que uma vantagem para nós.

Tive uma idéia: saquei a minha .45 e, fazendo uma voz abobada, os chamei dizendo: “Hallo, ich brauche ein wenig Hilfe hier!” (Olá, preciso de uma ajuda aqui).
Um deles se levantou e murmurou algo do tipo: “aquele paspalho é um incompetente...não consegue fazer as coisas direito!”.

Ao abrir a porta e de deparar comigo, eu o puxei e coloquei a .45, engatilhada, no pescoço dele, olhei para os outros e ordenei com um tom severo: “Kein Körper bewegen, oder ich blasé seinen Him raus! Sie, setzen Sie sich!” (Ninguém se mexe ou eu estouro os miolos dele! Você, senta aí! – essa ultima eu olhei para um dos chucrutes que estava de pé).

Mais do que imediatamente eles obedeceram. Tirei as armas daquele que eu segurava e o empurrei para perto dos outros dizendo: “Hände hinter euch, dem Gesicht zur Wand...jetzt!” (mãos atrás da cabeça e cara na parede...agora!)

Eles obedeceram e ficaram ali parados. E acrescentei: “der Erste, der sprechen wird das erste, um zu sterben! Zu verstehen?” (o primeiro a falar, será o primeiro a morrer! Entenderam?) – e eles só balançaram a cabeça positivamente.

Nisso, disse ao Spielgman para procurar o contato, enquanto eu vigiava os prisioneiros.

Do fundo ele me chamou, gritando: “Sargento, eu encontrei!”. Nisso, eu me distraí por um segundo, e um dos chucrutes resolveu reagir...e eu meti uma bala nele sem dó...bem no meio da testa.

Olhei com frieza para os outros 2, dizendo: “Jemand Anders?” (Alguém mais?). E ele apenas abaixaram a cabeça e ficaram olhando fixamente para a parece, ajoelhados e tremendo.

Logo em seguida ouvi o Major gritar, enquanto descia as escadas correndo, seguido pelos outros: “MAS QUE SANGUINOLÊNCIA É ESSA?!”
“Nada. Apenas os ossos do ofício!” – respondi.
Ele retrucou com o olhar algo do tipo “esses malditos ianques não sabem o significado do vocábulo ‘descrição’”.

Depois disso tudo, pude ouvir o Spielgman que gritava: “Alguém aí pode me ajudar, em nome de tudo o que é mais sagrado?! Tá complicado abrir essa porta!”

Deixamos alguns de guarda e fomos até lá, porém e ele acrescentou: “pode deixar, eu vou dar um jeito!”

“Dar um jeito? Que diabos ele quis dizer com isso?” – pensei. Mas não pensei muito. Ouvi depois ele gritar: “fogo no buraco!”, seguido de uma explosão.

Nisso, os 2 chucrutes começaram a rezar a oração do “Pai Nosso”. Exatamente! Começaram a rezar. Olhei para eles e pensei: “Como assim agora vocês começam a rezar?”

Enfim.

Depois da explosão, não fui eu, nem mesmo o Major, mas sim o Tenente Heiss que agarrou o Spielgman pela gola do uniforme, o encostou na parede e perguntou de uma forma um tanto sombria: “Filho...QUE DIÁBOS VOCÊ FEZ?”

Spielgman gaguejava, tentando explicar...algo como “eu t-t-ten-te-e-i...”, só que muito esquisito.

Quando fomos ver, o contato estava bem e...
Para a nossa surpresa, não era O contato, mas sim A contato. Uma mulher. Exatamente, uma mulher. Nada contra. Eu soube que os nossos aliados na frente leste têm mulheres em suas fileiras de batalha. Mas lá a história é diferente, o regime é diferente. Bom, não vou me ater a detalhes...

Mas o problema é que ela não falava a nossa língua, e pra piorar, o único que sabia falar era o mesmo que quase a matou: Spielgman.

Foi chamado para se apresentar. Ela, de olhos verdes, cabelos loiros e não muito compridos, de pele alva e face um tanto corada, o olhou como se dissesse: “Esse cara de novo?”

O Tenente apenas disse ao Spielgman: “Explique a situação para a moça...e não ferre tudo!”. Ele apenas, sem jeito, disse ao final: “Sim senhor!”.

Com a breve conversa que tivemos com a nossa ilustre convidada, descobrimos que se chamava “Ayla Murckli”, tinha seus 20/21 anos de idade e morava em Eindhoven com sua família até o dia da ocupação alemã, que destruiu tudo e os separou. Ela conseguiu escapar com o pai...onde se uniu à resistência holandesa, aprendendo à lutar contra os chucrutes.

Explicamos a ela os propósitos da missão e ela concordou em “seguir o plano” e deixar a Holanda até a liberação do país ou até o final da guerra, caso a operação Market-Garden não tivesse êxito.

Uma dica que eu deixou à você, Francis: NUNCA deixe o coldre da sua arma aberto.

Quando estávamos saindo, eu estava bem atrás dela quando chegávamos à escada. Ao ver os 2 chucrutes ali abaixados, com as mãos atrás da cabeça, ela se virou e avançou
sobre mim, puxou a minha . 45 do coldre e meteu uma bala na nuca do primeiro.
O segundo, apavorado, só teve tempo de gritar “Nicht schießen!” (não atire!), quando ela meteu uma bala em sua testa.

Todos nos entreolhamos, enquanto ela me devolvia a minha arma dizendo “dank je wel!”, que em holandês, de acordo com o Spielgman, significa “Muito Obrigada!”.
O tenente só acrescentou, olhando sarcasticamente para o Spieglman: “então é isso o que ela faz com aqueles que ‘tentam’ matá-la?! Interessante. Muito interessante. Braxton, abra o seu olho!”
E então isso virou o motivo de piada com ele. Nunca mais o deixamos se esquecer disso.

Ao final, o Major nos disse para ajuntarmos todos os corpos dos chucrutes mortos no porão e nos acomodar na casa, para passarmos a noite, ordenando, também, para que o Klein e o Spencer fossem para fora e sinalizassem para os nossos atiradores de prontidão para que se aproximassem trazendo os demais.

Mas eu preciso contar: quando o Nox soube o que aconteceu. Ele já soltou uma de suas gracinhas, assim que viu a moça: “Logo que a vi, pensei que ela seria ‘de matar’...sorte a minha é que holandesas não fazem o meu tipo, pois estaria ferrado!”. Ele é o único, depois do Tenente Heiss, que consegue extrair bom humor de situações trágicas.

Enfim, tomamos posições defensivas para o caso de alguma patrulha chucrute aparecer.

De acordo com o Major Kelloway, o segundo contato que deveríamos resgatar, de codinome “Rosa”, está entre as cidades de Uden e Grave, mais ao norte. Pelas transmissões de rádio, os “All Americans” conseguiram assegurar parte da cidade de Grave e seus arredores.

Partiremos ao amanhecer. Tentarei dormir um pouco. E por isso me despeço, até a próxima carta.



Um abraço, meu velho amigo. E não se esqueça do nosso trato.


Luke SaintJames Oak

Labels:

Saturday, October 10, 2009

Tempo para Conversar...

Inglaterra, 29 de Agosto de 1944


-adaptado do Francês-


Querida Marie


Como você está? Aqui está tudo bem, graças ao bom DEUS.


Recebi a sua carta e fiquei muito feliz em saber que a cidade está quase toda reconstruída. Realmente, fez-se um grande estrago. Eu recebi o seu presente. Gostei muito. Você recebeu o meu?


Esses dias, tivemos um treinamento muito intenso. Um dos pára-quedistas de outra companhia quebrou a mão treinando com a unidade dele. Mas não se preocupe, eu estou bem sim. Lembra daquele ferimento no meu braço? Já ficou bom.


Lembrei de você ontem. Sério! Quando tivemos uma pausa no treinamento, ouvi um pássaro cantando, e me lembrei daquela música que você cantou pra me acalmar naquela tarde em Carentan. Lembro dessa canção todos os dias.

Se você sente saudades de mim, eu também sinto saudades de você. Espero que essa guerra acabe logo para que eu possa te visitar.


Falando nisso, você soube? Paris foi liberada! Aconteceu no dia 25 desse mês. Se eu for para o continente, podemos combinar de nos encontra lá. O que você acha? Eu sei que Carentan não fica ao lado de Paris, mas poderíamos tentar.

Pra ser sincero com você, eu sinto que irei para o continente em breve, só espero que seja sem o uniforme de combate.


Mas não precisa se preocupar, pois eu sinto que ficarei bem. E reafirmo aquela promessa que te fiz naquela manhã: eu vou voltar!


Continue orando por mim, ok? E não deixe de escrever também.


Fique com DEUS
Um beijo

Luke SaintJames Oak

p.s: perdoe o meu francês. Eu ainda estou aprendendo, o que acontece todas as vezes que você me escreve.

Labels:

Wednesday, August 05, 2009

Transformando Garotos em Homens

Inglaterra, 20 de Agosto de 1944


Caro Francis


O descanso (vulga ‘folga’) acabou faz 20 dias e voltamos a treinar intensamente. Todos os dias acordamos de madrugada, antes mesmo de o sol nascer para treinar.

E nisso eu confirmei as minhas suspeitas: o Ten. Heiss é doido! Uma vez, depois de um dia intenso de treinamento, ele nos fez acordar às 2 da manhã para realizar um suposto ataque a um acampamento no meio de um bosque e, quando nós nos equipamos todos, ele cancelou tudo e nos disse para voltarmos a dormir. Isso fora as vezes que ele nos fazia correr quase 20 km depois de almoçar.

Nesse tempo eu pude conhecer melhor cada um dos novos membros da nossa companhia:

- O Spielgman é sociólogo, fluente em holandês e meio marxista;
- O Bonner tem descendência grega e o mais curioso é que ele, apesar de jovem, já tem cabelos grisalhos;
- O Constino é mexicano (quando ele começa a falar espanhol, ninguém mais entende) e uma pessoa muito forte fisicamente – alguns dizem que ele tem descendência indígena;
- O Hudson é casado e, antes da guerra, era professor de química de ginásio. Antes de vir para cá, ele freqüentou a escola de atiradores e te tornou um franco-atirador. O apelido dele é “Al” porque ele é do estado do Alabama;
- O Osbourne é músico (toca um pouco de tudo, se bobear até xilofone) – como ele é de origem havaiana, sempre que pode ele toca o seu ukulele (acho que é assim que se escreve), que ele trouxe de casa;
- O De’Loren era da divisão de homicídios da polícia de Nova York, e atuou em vários casos importantes;
- O Ten. Heiss ninguém sabe. Mas alguns dizem que ele trabalha na bolsa de valores, apesar de ser muito jovem (ele aparenta ter a minha idade: 25 anos) – bom, tem que ser louco para trabalhar em um lugar como aquele.

O tenente, apesar de doido, é experiente e consegue manter a calma em campo. Em todas as missões simuladas em que temos que achar o caminho de volta para a base, ele nos conduziu perfeitamente, evitando emboscadas e armadilhas preparadas.

Não sei até quando esse treinamento irá continuar. Só espero que os chucrutes sejam mais fáceis de lidar, depois disso tudo.

E sim, eu recebi mais uma carta da Srta. Marie esses dias. Confesso que até que estou gostando de conversar com ela por cartas. Ela me parece ser uma garota muito legal. E, como nas outras vezes, ela sempre pergunta: “quando é que você virá me visitar?” e eu sempre respondo que “será em breve” – espero que ela não fique chateada pela minha demora.

É engraçado que, apesar da distancia, eu sinto que estamos muito perto um do outro.

Falando em distância, você recebeu o meu souvenir? Espero que goste dela: Essa Luger* me deu um certo “trabalho” para conseguir (trabalho de acertar 5 projéteis de .45 em um chucrute). Que fique bem claro de que não me orgulho em matar alemães!

Para falar a verdade, a única coisa que me assombra de noite são as aparições dos rostos daqueles que morreram na França e na Itália. Às vezes eles viram para mim e me perguntam: “Por que nós, sargento?” e quando eu tento responder, eu acordo.

Espero que tudo isso passe, e rápido, pois eu não quero que me atrapalhe se formos encarar os chucrutes.

Bom Francis, é isso. Em breve te mandarei mais notícias. Continue orando por mim aqui.

Fique com DEUS
Um abraço

Luke SaintJames Oak


Agora vai! A inspiração bateu!!!

Quem sabe se na próxima carta, o Oak já entra em combate!

Aguardem porque aí vem mais!!!!

Para mais informações a respeito da série:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Pistola_Luger_P08 *
http://en.wikipedia.org/wiki/101st_Airborne_Division
http://en.wikipedia.org/wiki/82nd_Airborne_Division_(United_States)
http://pt.wikipedia.org/wiki/506%C2%BA_Regimento_de_Infantaria_P%C3%A1ra-quedista
http://en.wikipedia.org/wiki/502nd_Infantry_Regiment_(United_States)

Labels:

Sunday, July 05, 2009

Inglaterra: Um Descanso Merecido

Inglaterra, 10 de Julho de 1944

Caro Francis

Muito obrigado pelas notícias de casa. Fico muito feliz que está tudo bem. Aqui também está tudo bem. Tive a minha primeira noite de sono sem qualquer preocupação depois de quase 30 dias de combates ininterruptos. Tomei um banho quente assim que cheguei, há alguns dias. E tive uma boa refeição – uma de verdade, não aquela pasta que é a Ração K.

Mas tenho algo para lhe contar.

Você se lembra do Irwin Ike, que lutou conosco na Sicília (Op. Husky) e em Salerno (Op. Avalanche), durante a campanha na Itália? Então, descobri ontem que ele foi morto em combate em Cherburgo. Por curiosidade eu pedi a relação de baixas e descobri isso. Lastimável, mas eu tenho certeza de que ele lutou bravamente! O que me lembra: em Cherburgo, o major Topawisk e o sargento de pelotão Stuart, que antes estavam desaparecidos, foram feridos em ação e vão voltar para casa.

Hoje recebemos um novo comandante: O tenente Howard Hughes Heiss que lutou na companhia Dog do regimento 506th da 101st. Divisão Airborne. Assim, a primeira vista, ele me pareceu ser um homem de princípios, apesar de dizerem que ele é meio ‘doido’, mas eu ainda não vi algum comportamento dele que indicasse isso. Vamos esperar para ver.

Eu fui promovido para 1º Sargento! O Capovich foi promovido para 2º Sargento. Lembra do Sargento Angel Days “Angie” Dubowski? Foi promovido para 2º Tenente. Nós, que lutamos na França recebemos algumas medalhas “por nossa bravura em combate e...blá blá blá...” – sabe que eu não ligo muito para condecorações (mas se eles quiser me condecorar com a Medalha de Honra do Congresso, por mim tudo bem! *risos*).

Também hoje, entraram novos pára-quedistas para substituir aqueles que morreram na campanha francesa. São eles:

Cb. Braxton Spielgman
Cb. Viktor “Bonner” Bonnerius
Sld. Ruiz Constino
Spc. Ross “Al” Hudson
Sld. James Osbourne
Sld. Leon De’Loren

A partir do momento que chegaram aqui, eles foram taxados de “substitutos” por alguns. Sinceramente Frans, eu não quero ver mais garotos virem aqui para morrer.

É engraçado. O sobrenome do último me lembra o sobrenome da Srta. Marie. Lembra dela? Recebi uma carta dela ontem, que eu penei para conseguir ler. Minha sorte é que o Frenchman é mais sossegado e não vem tirar com a minha cara a respeito disso (ao contrário daquele piadista do Nox).

Ela me disse que ela e a família estão bem e que estão reconstruindo Carentan. Disse que estava com saudades e me perguntou “quando eu vou voltar para buscar a minha plaqueta” – bom, se DEUS quiser eu irei visitá-la no mês que vem (estou com uma sensação de que logo logo Paris será liberada). Eu respondi a carta dela no mesmo dia que eu a recebi (vai, pode falar, eu não ligo!). *risos*

Agora só tenho uma pergunta, ainda que absurda: Como é que ela descobriu o meu endereço aqui na Inglaterra? Será que foi através do número de série da minha plaqueta?
Essa dúvida ficou na minha cabeça, tanto que eu até perguntei para ela na resposta da carta dela.

Hoje de tarde fomos eu e alguns rapazes a Londres. Visitei o Big Ben (aquilo sim é um relógio) e, pra variar, fomos a um clube militar. Até que a noite foi divertida – podemos esquecer um pouco do que vimos na França.

Bom Francis, segundo o que eu ouvi, parece que teremos essa ‘folga’ apenas esse mês e no mês que vem iremos voltar a treinar. Tenho a sensação de que ainda não vimos nem a ponta do Iceberg.

Diga a mamãe e papai que eu estou bem e que logo logo, se DEUS assim o permitir eu estarei em casa. Mandarei mais notícias assim que possível.

Fique com DEUS, meu amigo. E continue orando por mim!

Um grande abraço

Luke SaintJames Oak

(Pára-quedista do Regimento 502nd da 101st Divisão Airborne)


Eis aí o 1º capítulo da 2ª temporada de Death-Reports
Espero que gostem, pois tem muito mais por aí!

- Glossário:

Sld: Soldado
Spc: Soldado de Primeira Classe
Cb: Cabo
Sgt: Sargento
Ten: Tenente
Cpt: Capitão
Mj: Major
Ten.Cel: Tenente Coronel
Cel: Coronel
Gal: General

Labels:

Tuesday, February 24, 2009

Enfim um Descanso?

Cherburgo – 30 de Junho de 1944

Caro Francis,

Obrigado pelas notícias de casa. Você deve estar se perguntando sobre o Bearstov não é? Então, ele me disse que está bem, apesar de tudo o que esta passando em plena Normandia. Ele me disse que também enviou uma carta para você – ela deve chegar em breve.

Bom, continuando desde a ultima carta, naquela noite eu não consegui dormir. Não consegui mesmo – tentei e tentei e nada. Até que eu desisti e saí para esticar as pernas (levando a minha arma comigo, é lógico!).

Pensei em dar uma volta pela cidade, nas escuras mesmo (tínhamos 2 grupos fazendo ronda – o 1ª eram: Porter, Potter, Olivers e Ramirez; e o 2ª eram: Peterson, Toronto, Kurtwell e Allison – o esquema era rezar para que nenhum deles me confundisse com um alemão, porque senão...) . Virei em uma esquina, depois em uma ruela e quando fui perceber, estava atrás de uma casa com uma vista para um campo alagado (uma paisagem muito comum na região – parecem pântanos, mas não são). A noite estava sendo iluminada pela Lua, muito bonita por sinal. Me sentei num tronco nas proximidades e fiquei observando a paisagem, quando de repente, ouvi um ruído vindo de trás de mim – havia sido seguido? Mas por quem? E esse alguém...era amigo ou inimigo? Talvez um alemão que ficou pra trás e se escondeu? – mas que imediatamente me virei, engatilhei a minha arma e disse várias vezes em alemão: “Wer geht dort?” (Quem vem aí?) e para a minha surpresa, a resposta veio ao som de uma doce voz: “Ne lance pas! Je suis!” (Não atire! Sou eu!) – era ninguém mais que a senhorita Marie. Suspirei aliviado, pensei que poderia ser um alemão. Ela até brincou, dizendo: “Je t'ai effrayé?” (Te assustei?) e eu rindo, travei a minha arma e voltei a mesma posição que estava antes. Nisso, ela veio e sentou-se a minha esquerda.

Antes que eu pudesse falar alguma coisa, ela viu o sangue no meu uniforme e ficou assustada: “Mon Dieu ! Tu vous blessez ! Son bras... saigne!!!” (Meu Deus! Você está ferido! O seu braço...está sangrando!!!) ela dizia enquanto apalpava o meu braço. Eu senti um pouco de dor nessa hora, apesar do curativo ser novo e ter se passado algum tempo do momento que o ferimento se fez, e ela percebeu isso: “M’excuse! Fait mal très?” (Me desculpe! Está doendo muito?) e eu fiz sinal que não e ela, sorrindo, disse num tom de alívio: “Grâce a Dieu!” (Graças a Deus!). E ficamos lá conversando – ela ficava com o olhar distante, olhando para a Lua que iluminava aquele céu noturno. Havia momentos que simplesmente que parávamos e ficávamos olhando um para o outro sem dizermos uma só palavra, então voltávamos à conversa, ou arranjávamos um assunto novo – ou ela ria da cara que eu fazia (ela dizia que eu estava fazendo “cara de bobo”).

E continuamos assim, até que eu percebi que estava falando sozinho: ela havia dormido, encostada no meu braço – tão tranqüila que parecia um anjo (essa devia ser a primeira vez, em 4 anos de ocupação, que ela dormiu tranqüila). Tentando não acordá-la, eu retirei o meu braço do caminho, encostei a cabeça dela no meu peito e a abracei com o mesmo braço. E ficou assim, até que ela acordou e, ao perceber que estava encostada a mim, levantou o rosto, olhando nos meus olhos, sorri e voltou a se encostar (Admito que fiquei vermelho com isso).

Como já estava tarde da noite, eu a levei de volta para a casa dela. Ao chegar às escadas que ficavam na frente da casa dela, ela virou e me disse: “Il me pardonne si je t'ai confondu là.” (Me perdoe se eu te atrapalhei lá.) e terminando essa frase, ela retirou um crucifixo prateado que usava. Em seguida ela pegou a minha mão e colocou, delicadamente o crucifixo nela e enquanto a fechava, ela sorriu. Eu abri a minha mão para ver o presente e ela ficava me olhando, sorrindo. Agradeci e desejei boa noite e ela fez o mesmo. Ela entrou na casa dela e eu dei meia volta para voltar onde o resto do pessoal estava.

No caminho, enquanto eu colocava o crucifixo, ouvi um grito: “PARADO Aí! MÃOS NA CABEÇA!!!” – eram o 1º grupo de ronda que tinha me confundido com um alemão e que quando perceberam, disseram: “Que droga, sargento!!! A gente quase te encheu de chumbo!!!”, eu respondi: “Ah sim, e os meus olhos são ‘castanhos-azuis’!!!” e eles, assim como eu, riram.

Bom, depois dessa cena cômica, cheguei onde era o nosso “alojamento” e tentei dormir. Olha, nem sei se eu cheguei a deitar. Só me lembro que tive uns sonhos estranhos e acordei com o Nox me chamando. Assustei-me de um jeito tão grande, que me lancei pra cima dele e coloquei a .45 em seu pescoço.

Quando percebi que era ele mesmo, o próprio resolveu tirar uma com a minha cara logo cedo: “Sargento, só uma pergunta: Só porque estamos aqui, enroscados um no outro, não significa que tomaremos banho juntos ao amanhecer não é? Ou tomaremos?” – respondi a altura: “Nox, você precisa arranjar uma mulher! Isso sim!”, me levantei e começamos a rir.

Eram 6hs da manhã, e começamos a no preparar para partir. Empacotamos tudo, enchemos as cartucheiras e nossos cantis. Eu, como fazia em todas as manhãs, me ajoelhei e fiz a minha oração, o Angie se juntou a mim para o mesmo. Toullouzzi, como o bom judeu que é, fez também as suas orações.

Quando todos estavam fora, fui à frente deles, e disse: “Hoje, o nosso objetivo é chegar em Bapte. Lá, nos juntaremos ao resto da divisão 101º e 82º! Teremos 2 blindados conosco: o do Sargento Jackson e o do Sargento Riley. Portanto, ninguém morre! okay? Muito bem, vamos lá!” em seguida chamei o Capovich e dei a liderança a ele, que me perguntou onde eu ia. Respondi que tinha um assunto pessoal a tratar.

Fui até a casa da senhorita Marie – Eu precisava me despedir dela, que foi tão gentil comigo. Subi as escadas, cheguei à porta e bati. Ela atendeu e me olhou surpresa como se falasse: “Já de pé há essa hora?”, logo sorriu, como sempre fez todas às vezes, e eu sorri de volta, como sempre fiz. Então ela percebeu que eu estava carregado para ir embora e disse: “Tu dejà allez?” (Você já vai?) e balancei a cabeça positivamente. Ela tentou disfarçar um sorriso, mas eu percebi que ela segurava um pouco de choro. Então eu disse para que ela não chorasse, e tirei a minha plaqueta de identificação (Dog-Tag), a coloquei nas mãos dela, da mesma forma como ela me deu o crucifixo, e disse: “Je tournerai pour recueillir cela de retour” (Eu voltarei para pegar isso de volta). Ela sorriu (dessa vez sem forçar), me abraçou. Ao se soltar do abraço, agora em lágrimas, sorriu e disse: “J’attendrai” (Estarei esperando) e completou: “Maintenant aille parce qu'ils doivent être t'en attendre pour continuer” (Agora vá porque eles devem estar te esperando para continuar) – sorri (tentando não ser envolvido pelo momento), desci as escadas andei um pouco, me virei e a vi parada lá olhando pra mim, acenei e ela respondeu, me virei de volta e rumei para me juntar ao resto do pessoal que estava muito adiantado.

Encontrei-me com o tanque do sargento Jackson e com o resto do grupo – Frenchman me olhava de maneira estranha e eu, sempre que percebia, perguntava: “o que foi?” e ele sempre respondia: “Nada, sargento”.

Enfim, estávamos nos aproximando de Bapte por uma pequena ponte (estreita o bastante para passar um tanque de cada vez), quando um foguete de Panzefaust atingiu o caminho a nossa frente. Nessa hora não sabíamos de onde veio o disparo. Então o Angie, sabiamente, ordenou que seus homens concentrassem o fogo nos possíveis locais de disparo, enquanto o tanque do sargento Riley cruzava a ponte para conseguir um ângulo de ataque melhor.

O tanque do sargento Jackson ainda estava na ponte, mas a sua torre podia girar perfeitamente. Então eu ordenei, aos berros: “JACKSON!!! ATIRE NAQUELES ARBUSTOS ALI, POR ONDE O TANQUE DO RILEY VAI PASSAR! SE TIVERMOS SORTE, OS CHUCRUTES NÃO ATIRAM DE NOVO!!!” e ele concordou. Mirou e disparou um projétil naqueles arbustos que, quando explodiu, lançou uns 3 alemães a vários metros de distância. E começamos a avançar.

Avistei algumas casas do vilarejo e decidi em irmos naquela direção. Havia alemães escondidos naquelas casas – alguns no térreo, outros no andar superior. Ordenei que parássemos perto de um celeiro nas proximidades. Precisávamos limpar o vilarejo sem ferir os seus moradores e, em prol disso, os tanques ficaram proibidos de atirar nas edificações, mesmo se houvesse confirmado atividade hostil.

Como estávamos não muito longe da primeira casa, chamei um batedor: “Cherok, vá até aquela casa e limpe-a! Holyman vá com ele!”, e o Angie, ouvindo o que eu disse, chamou alguns dos seus: “Kurtwell, Tarket e Peterson...vão com eles!!!” - o resto de nós ficou aguardando, pois iríamos usar aquela casa como um Posto de Comando improvisado. Tudo ia muito bem até o Toullouzzi avistar um tanque Panzer III. Eu tinha certeza que aquele troço viu o grupo entrar na casa e, em virtude disso, comecei a gritar: “HEY!!! SAIAM DAÍ!!! ADEM, SAIAM LOGO!!!! TANQUE!!!!!” – dos 5 que foram enviados, 4 retornaram, levando consigo as pessoas que moravam naquela casa e o Cherok não estava com eles. Percebendo isso, gritei: “CHEROK!!!! SAIA DAÍ SEU IDIOTA DESGRAÇADO!!!! SAI LOGO!!!!!” – quando eu acabei, ele atravessou a janela do andar de cima, bem na hora que o andar foi explodido pelo disparo do tanque. Quando o Cherok caiu, ele não conseguia se levantar e eu, mais que imediatamente, corri para onde ele estava, atirando em tudo que estivesse de cinza. Angie, Holyman, Kurtwell, Peterson e Tarket foram comigo, me cobrindo.

Quando cheguei ao Cherok, ele ficava dizendo: “é a minha perna esquerda, sargento...dói muito! Dói muito!” – eu disse para os outros me cobrirem, enquanto eu e o Angie tentávamos tirá-lo de lá. Gritava: “Me ajuda Angie! Puxa o braço direito que eu puxo o esquerdo!” – e assim o arrastamos para a retaguarda enquanto o resto do grupo nos cobria.

Chegamos ao Sherman do sargento Riley e, enquanto o Doc atendia o Cherok, o Angie subiu na torre do blindado para falar com o comandante: “Riley, tem um maldito blindado alemão ali! Atrás daquela casa! Você precisa explodi-la para vê-lo!” – o Riley questionou a respeito de haverem civis, mas o Angie falava, a todo momento, que não tinha, que estava limpo, etc. Então o Riley decidiu por explodir a casa para, então, avistar e destruir o tanque. E assim o fez.

Quando aquela casa caiu, dava pra ver alguns Fallschirmjägers buscando abrigo nos prédios vizinhos e o tanque inimigo girando a torre na nossa direção. Quando esse monstro disparou, poderia jurar que vi a minha vida inteira passar diante dos meus olhos. Para a minha sorte ele errou, mas por muito pouco. Esse erro deu tempo para o Sherman do sargento Riley recarregar e atirar no Panzer alemão, que o atingiu, danificando a sua torre.

Com o Panzer parcialmente inoperante, eu consegui avistar alguns alemães recuando. Provavelmente eles recuavam em direção da igreja. E, também, provavelmente eles tinham mais blindados na área. Mas não deu tempo para pensar, já que a metralhadora do tanque abriu fogo contra o Sherman e o nosso grupo que estava, literalmente, encurralado atrás. Nisso, chegou o Sherman do sargento Jackson que disparou o seu canhão diretamente na parte frontal do Panzer, destruindo a metralhadora, matando seus ocupantes.

Com esse alívio, me virei para o Doc e perguntei como o Cherok estava e ele respondeu: “Bem sargento! Se pode assim dizer...ele quebrou a perna em duas partes: no fêmur e perto do tornozelo. Ele vai voltar para casa”. Tendo ouvido isso, ordenei ao Wisbowski que enviasse uma transmissão ao hospital de campo para que enviassem um jipe médico. Esperamos o jipe chegar, nos despedimos do Cherok e continuamos.

Começamos a avançar sendo liderados pelo Sherman do Sargento Riley pela rua principal e não demorou muito para sermos encurralados por uma metralhadora alemã e um canhão de rua. Gritávamos: “CUIDADO, SAIAM DA MALDITA RUA!!!!!”. Quem se protegeu do lado esquerdo da rua, ficou completamente encurralado, mas quem se protegeu do lado direito, dava pra flanquear a posição alemã – eu fui um dos que se protegeu do lado direito, juntamente com o Topak, O’Brian, Judas, Tritton, Teddy, Lou, Angie e Peterson.

Com aquele canhão de rua lá, os tanques não poderiam avançar mais, tinham que se protegerem também. Então nós, os sortudos, mais que rapidamente rumamos para flanquear a posição alemã. O Angie liderou essa investida. Só conseguíamos ouvir os disparos ensurdecedores da MG-42 alemã...rajadas quase que intermitentes, vindas de uma janela do 2º andar de um prédio que estava no final da rua.

Ao chegarmos no flanco do canhão, matamos todos os chucrutes que o defendiam e o explodimos com uma granada. Em seguida o O’Brian gritou para quem estava perto do tanque do sargento Riley: “CANHÃO FORA!!!! CANHÃO FORA!!!!” – nisso, avisaram o sargento Riley que começou a avançar com o tanque. A metralhadora alemã começou a atirar no tanque de maneira incessante, tentado pará-lo a qualquer custo. O que foi inútil. Quando o tanque disparou, a janela inteira foi vaporizada.

Continuamos a avançar em direção da igreja de Bapte – é incrível como toda a ação se concentra perto das igrejas (parece que a briga não é pelas cidades, mas sim pelas igrejas). Era possível ver os alemães correndo de um lado a outro, buscando abrigo (e atirando na gente também!). Como tínhamos 2 tanques, eles iam na frente e nós íamos atrás, no abrigando. A luta por Bapte foi intensa! Os Chucrutes não queriam deixar o vilarejo “pacificamente” (o que na linguagem da Airbourne significa: rendição incondicional).

Tomamos casa a casa. Desta vez não usamos granadas, pois tinha uma maior concentração de civis na área – só usávamos “brutalidade excessiva” quando o que atirava em nós, ou fosse uma metralhadora, ou fosse alguma arma antitanque (como um canhão de rua). No fim do dia tomamos o vilarejo, mas continuamos a avançar para chegarmos no nosso objetivo principal: Saint Sauveur.

A nossa investida em Bapte empurrou os alemães até as redondezas, numa região onde havia uma grande concentração de cercas vivas. Não perseguimos os chucrutes até essa região. Quem cuidou dessa tarefa foram os rapazes do grupamento 16 da Companhia Fox – Sargentos Mathews Baker e Joe Hartsock, se não me engano.

Enfim. A nossa tarefa agora era rumar até Saint Sauveur que, do francês, significa “Santo Salvador”. É irônico como muitas das cidades em que lutamos têm nomes de santificações da igreja católica, e essas mesmas cidades foram palcos e testemunhas da maior brutalidade que a humanidade conhece: a guerra.

No caminho até essa cidade, encontramos bastante resistência dos chucrutes, mas não tivemos baixas. Eles tinham posicionado Flaks 36 (vulgas ‘88’) para nos parar, o que não aconteceu.

Ao adentrarmos na cidade, o lugar todo estava em ruínas. Podíamos ver veículos aliados e alemães destruídos por todo o lugar! Havia corpos de pára-quedistas mortos, em estado de decomposição avançada (o cheiro era insuportável) e para piorar: começou a chover! Exatamente, começou a chover! E uma bela chuva!

Com isso, abrimos a formação, mantivemos um intervalo bem grande entre cada um de nós (a essa altura éramos 25 soldados), para que não fossemos um prato cheio na mão dos nazistas.

Naquela chuva, não víamos nada, então paramos num lugar aparentemente seguro. Lancei a seguinte pergunta: “para onde iremos?” – O Angie respondeu na hora: “para onde mais? Vamos para a igreja!”. Percebendo a ironia da resposta, rimos um pouco, mas depois ficamos sérios novamente.

Então seguimos a rua mesmo. Ficamos alertas todo o tempo, ainda mais com aquela chuva que parecia que era o dilúvio Bíblico. Mas o pior não era isso. O pior era a cena de destruição que havia ao redor: carros, árvores, prédios e tudo o mais destruído. Isso somado ao som de combate longínquo (tiros, explosões e gritos em inglês, alemão e francês).

Passamos várias ruas e nada de combate. Nisso o Angie me alcança e fala: “Oak, será que nós estamos indo em direção a uma armadilha? Porque ao mesmo tempo que parece que este lugar está deserto, tenho o pressentimento de que algo ruim vai acontecer!”

Chegamos a uma esquina que dava para uma praça a nossa esquerda e a direita dessa praça, seguindo a rua, tinha uma vala (que mais parecia uma trincheira) que dava para uma descida até uma outra edificação. Como o Fox estava junto de mim, ordenei a ele que olhasse, cautelosamente, para ver se tinha atividade inimiga. Ele o fez e reportou: “Sargento, eu não vejo nada! Se há algum inimigo lá, eu não consigo vê-lo daqui!”. Chamei o Angie e concordamos em dividir o grupo para poder prosseguir (fizemos 04 grupos). O primeiro grupo era: Eu, Nox, Fox, Topak, Holyman e O’Brian; o segundo era: Capovich, Frenchman, Porter, Potter, Olivers, Ramirez e Wisbowski; o terceiro grupo era: Angie, Taylor, Tritton, Lunnis e Lou; e o quarto grupo era: Tomasso, Toullouzzi, Peterson, Thor, Stan e Tarket.

Com a divisão feita, nos preparamos para cruzar o trecho aberto. Decidimos que seria um grupo por vez, mas como eu tinha dado essa idéia, o meu foi o primeiro. Só te digo uma coisa: corri pra burro! Mas chegamos em segurança do outro lado. O próximo grupo foi o do Angie, que chegou bem mais rápido que o meu. Em seguida foi o grupo do Tomasso, mas aí começou um inferno: disparos de metralhadoras alemãs, seguidas por disparos de “88” começaram. Foi tamanha a confusão que alguns dos pára-quedistas correram até a vala para se protegerem, sem falar que o grupo do Capovich começou a correr de forma completamente desesperada.

Lembro que eu e o Angie ficávamos gritando: “FOGO DE COBERTURA!!!! VOLTEM!!! VOLTEM!!!!”. Gritamos a plenos pulmões, ao mesmo tempo em que atirávamos na direção do fogo inimigo.

Foi quando eu vi um ser humano ser desintegrado pelo disparo de uma “88”: era o cabo Adrian Peterson. Morreu de uma forma tão bruta e absurda. A única coisa que sobrou dele, e estava parcialmente intacta, era o seu capacete...que foi lançado na nossa direção com a força da explosão. Não deu tempo de lamentar ou pensar em outra coisa: outro disparo de “88” caiu perto do Wisbowski que, atingido pela explosão, caiu no chão já gritando de dor. Gritei por “COBERTURA”, chamei o Nox e fomos lá tentar salvá-lo. Ao chegarmos lá, o operador do rádio estava no chão se re-contorcendo enquanto gritava: “TIRA ISSO DE MIM! TIRA ISSO DE MIM! TÁ QUEIMANDO!!! TÁ QUEIMANDO!!!!” – era o rádio que tinha sido atingido. Mais que depressa cortamos as alças do rádio e arrastamos o Wisbowski pra um lugar seguro.

Corremos até a vala e de lá começamos a trocar tiros com os alemães que estavam nos atacando do outro lado da praça. Só dava para ouvir os tiros das nossas armas, os zunidos dos tiros das armas dos alemães e as explosões dos impactos dos projeteis de “88”. Pensar tornou-se impossível. E pra piorar a situação, começou uma saraivada de explosões de morteiros – provavelmente havia uma equipe de observação próxima.

Com a nossa situação piorando a cada minuto que se passava, precisávamos de apoio aéreo. Chamei o Toullouzzi, já que ele era um franco-atirador e perguntei a ele: “Daqui onde nós estamos, onde você estaria para nos ver perfeitamente sem ser notado?”, e ele, cuidadosamente, olhou ao redor dele e ao ver uma casa amarela de 2 andares, relativamente distante da nossa posição, disse: “Lá sargento! Seria lá que eu estaria!”. No mesmo instante eu chamei o Capovich e o ordenei, juntamente com o seu grupo (Frenchman, Porter, Potter, Olivers e Ramirez), a avançar até a dita casa que o Toullouzzi desconfiou e tomá-la.

O Capovich me perguntou o porque dessa manobra e eu respondi: “Segundo o Toullouzzi, pode haver uma equipe de rádio nazista lá. Se ele estiver certo, vocês terão que ‘pedir emprestado’ o rádio para chamar apoio aéreo” – ele sorriu, um sinal de que entendeu claramente o que eu quis dizer, enquanto Toullouzzi passava as coordenadas num pedaço de papel para ele.

Antes de começarem a correr, gritei: “FOGO DE COBERTURA!!!!!!” e começamos a atirar nos alemães que estavam nos atacando da praça, para mantê-los abaixados para que o Capovich e seu grupo pudessem avançar. Só sei que eles conseguiram chegar na bendita casa sem problemas. Agora só nos restava esperar e continuar atirando nos alemães para mantê-los lá.

Eu já passei por muita coisa ruim Francis, você bem lembra de quando estávamos na Sicília e, nesse meio tempo, eu aprendi mais do que ninguém o que a pressão física e psicológica pode fazer com o mais sóbrio e sensato dos seres humanos. Digo isso que foi só o Capovich adentrar a casa e, tendo sucesso em tomá-la, fazer um sinal pela janela, que o Angie saiu da vala e começou a correr em direção dos alemães, como um louco, enquanto disparava a sua arma numa fúria quase que sobre-humana. Ele gritava: “MALDITOS!!! EU VOU MATAR TODOS VOCÊS SEUS VERMES MISERÁVEIS!!! CÃES SARNENTOS MALDITOS!!!”. Corri atrás dele para tentar impedir que ele, envolvido nessa loucura, se matasse.

Ao alcançá-lo, o puxei para um abrigo, mas mesmo assim ele não parava de atirar e praguejar. Eu entendia a dor dele: em 10 dias de combate, ele só viu morte, angústia, tristeza, horror e sangue. Isso me lembra o que um sargento da 101st disse: “Como um homem pode se concentrar na vida se tudo o que ele vê é morte?”.

Ao acalmá-lo, começamos a lutar, literalmente, por nossas vidas. A coisa ficou desesperadora quando o Angie gritou: “PANZER!!! PANZER!!!”. Essa foi uma das raras vezes que eu realmente pensei que iria morrer. Já via como aquele monstro de metal arrancaria as vidas dos nossos corpos. Mas mesmo em meio aquele desespero momentâneo, não paramos de atirar e começamos a correr para o prédio mais próximo que tivesse uma porta aberta.

Foi bem no meio dessa correria que eu senti um impacto de uma explosão, que me derrubou no chão. Ao virar para trás eu vi aquele mesmo tanque destruído e em chamas, e guiado pelo som, vi um P-51 Mustang, um caça da nossa Força Aérea e vi que nele estava pintado o número “777” e na mesma hora eu disse: “Esse aí é sortudo! Tinha que ser 777”. O Angie na mesma hora me olhou espantado, como que não acreditasse no que tinha acabado de ouvir, de tal maneira que me pediu para que eu confirmasse o número e quando o fiz, ele disse com um entusiasmo contagiante: “Eu sabia! Eu sabia! Tinha que ser ele mesmo!”. Quando perguntei que era, ele disse: “É o meu irmão!”. Isso me pegou de surpresa. O Angie nunca tinha me falado que tinha um irmão e que ele estava servindo na Força Aérea. Mas só sei que ele nos salvou mesmo pois quando a fumaça abaixou, vimos que eram 3 tanques Panzer e 2 canhões de Flak 36, que estavam todos destruídos, juntamente com os alemães que os operavam.

Enquanto tomávamos um ar, depois desse combate feroz, vimos um grupo de alemães vindo até nós, de mãos levantadas. Estavam se rendendo. O Nox chegou bem a tempo de soltar um dos seus comentários: “é isso o que eu chamo de uma bela visão pacífica”, o que nos rendeu boas risadas. O resto do pessoal se reagrupou a nós e então desarmamos os alemães. Enquanto fazíamos isso, chegaram alguns caminhões aliados trazendo mais soldados e oficiais, juntamente com tanques e equipes médicas que levaram o Wisbowski para ser atendido – segundo eles, ele sofreu algumas queimaduras, mas ficará bem, assim como o Cherok, que tinha quebrado a perna em Bapte. Era isso: Tomamos Saint Sauveur!!!

Seria esse um descanso? O nosso tão merecido e desejado descanso? Não! Não seria ainda. Todos nós sabíamos que só iríamos descansar quando os alemães se rendessem completamente...o que, com certeza, ocorreria quando estivermos em Berlim, no coração da pátria alemã.

Isso tudo aconteceu no dia 16 de Junho. Cinco dias depois formos enviados as redondezas de Cherburgo. Mas desta vez fomos divididos das divisões. Isso, para ser sincero, me doeu um pouco porque nós nos unimos tanto nos momentos de angústia que eu não via mais divisas, mas sim irmãos. Tanto que eu senti, como ainda sinto, as mortes de todos, sejam eles da 82nd ou da 101st.

Cherburgo não foi um mar de rosas. Bom, essa cidade era portuária e precisávamos dela para desembarcar suprimentos. Soube que até os pára-quedistas ingleses da 6ª Divisão Aerotransportada estavam lá lutando ao nosso lado.

Lá a nossa missão era apenas de suporte. O Exército é que ficou encarregado de tomar a cidade. A rendição alemã em Cherburgo se deu hoje: 30 de Junho de 1944 – este foi o fim da Operação Netuno. Nós todos tivemos um verdadeiro descanso. Mas sinceramente, parece que a vitória se tornou embaçada pelos rostos daqueles que morreram ao nosso lado em 24 dias de combate.

Estão dizendo que teremos 2 meses de descanso na Inglaterra e, enquanto isso, o General Patton se dirige até Paris. Muitos ficaram tristes por não estar lá para participar da liberação da “Cidade Luz”. Mas acredito que, se não descansássemos, enlouqueceríamos. Ainda iria demorar até Paris ser retomada, sem falar que já completamos a nossa missão.

Então é isso Francis, próxima parada: Inglaterra. Camas macias e quentes, refeição quente e chuveiro quente. Até parece um sonho que se realiza. E nós todos, os 24 sobreviventes da batalha de Saint Sauveur iríamos desfrutar. Espero que eu encontre aqueles que ao lado lutei em Carentan e na Colina 30 lá também. Teremos muitas histórias para contar.

Muito bem Francis, aqui eu me despeço, mas te digo que não será a ultima carta que receberás de mim. Não mesmo! Se DEUS quiser, não será!

Diga a mamãe e papai que eu estou bem e que logo logo, se DEUS assim o permitir eu estarei em casa. Mandarei mais notícias assim que possível.

Fique com DEUS me amigo. E continue orando por mim!

Um grande abraço. Do seu amigo

Luke SaintJames Oak

---------------------------------------------------------------------------------

Ufa! Finalmente o Capítulo 8 saiu ^^"""
Desculpem a demora...quando a falta de inspiração bate é fogo ¬¬"""

mas espero que gostem!!!

Fiquem todos com DEUS
abraços

DTA

Labels:

Monday, September 17, 2007

Carentan

Carentan – 15 de Junho de 1944


Caro Francis,

Mais uma vez obrigado pelas notícias de casa. Devo admitir que fiquei surpreso com a notícia de que o sobrinho dos Wesley, o Mitchell, se alistou na primeira divisão de infantaria (Big Red One). Estarei orando pra que corra tudo bem com ele.

Hoje acordamos cedo. Nosso destino era Carentan, um dos principais alvos das companhias de pára-quedistas.

Silver, nosso homem do rádio, captou uma transmissão de que alguns rapazes do Fox-16 estavam passando por uns bocados perto de Purple Heart Lane, então decidimos ir direto para lá.

No caminho, Holyman, que liderava a formação, fez sinal para pararmos – ele tinha avistado um grupo perto de umas árvores mais à frente. Ele me chamou e disse: “Sargento, dê uma olhada naquela direção, perto dos arbustos. Tem gente lá, só não consigo saber se são dos nossos.” – daí eu respondi: “vamos descobrir.”. Peguei o meu “clicker” e fiz sinal para todos se prepararem. Eu lembrei muito bem no que me disseram sobre o clicker: “um clique deve ser respondido por dois cliques”, então eu dei um clique e esperei. Para a minha sorte, eu ouvi dois cliques de resposta, olhei pelos meus binóculos e confirmei que eram aliados, então acenei para eles, que me acenaram de volta. Dei a ordem para o meu grupo voltar à formação e se juntar com o outro esquadrão de pára-quedistas. Para a minha surpresa, esse novo grupo era o 505th PIR, Companhia Able-16, o grupamento do Angie - eram os homens dele, que tinham se separado desde o Dia D. Eram todos da 82nd Airbourne:

Spc. Igor Cavallera
Sld. Thomas “Tom” Tritton
Sld. Joseph Stallion
Cb. Theodor “Teddy” Lunnis
Spc. Luke “Lou” Tummer Allison
Sld. Sean Toullouzzi (um franco-atirador)
Cb. Adrian Peterson
Sld. David “Thor” Toronto
Spc. Stanley “Stan” Kurtwell
Sld. Brian Locke
Sld Hives Tarket

Estavam sendo liderados pelo Coronel William “Bax” Baxter.

Nunca vi um homem tão feliz como o Angie naquele momento. “Achei que vocês tinham se separado”, dizia ele. – mas foi isso o que aconteceu com nós durante essa operação. Nossos homens se separaram da divisão e se juntavam com o pessoal do 501st PIR, 505th PIR, 506th PIR, etc (foi dureza reunir todo mundo).

Depois de nos conhecermos melhor, fomos em direção de Purple Heart Lane para encontrarmos e ajudarmos os rapazes do Fox-16. No caminho, agora com um número considerável de homens para fazer um estrago, ouvimos disparos de MG’s. Os disparos começaram a ficar um pouco mais altos, dai ouvimos: “VAMOS, VAMOS, VAMOS!!!! CORRAM, VAMOS!!! NÃO PAREM!!!” – eram os caras do Fox-16 (502nd PIR, Companhia Fox-16).

Fiz um sinal para os meus homens para que avançássemos mais rápido. Estávamos em uma estrada de terra, daquelas rurais, com bastante vegetação rasteira alta dos lados, impossibilitando que víssemos com exatidão o outro lado. Então o coronel disse para um dos homens dele (da 82nd) tentar olhar por cima – ele escolheu o Locke, que quando levantou a cabeça e levou um tiro. Quando ele caiu, vi que os olhos dele ainda estavam abertos (acho que nem ele percebeu que tinha morrido naquela hora) e então o coronel Bax disse para que nos separássemos e assim o fizemos.

Nos unimos aos rapazes do Fox-16, mas não foi fácil. Os malditos alemães estavam mandando tudo o que tinham pra cima da gente. Não demorou muito e pudemos ouvir as blasfêmias do cel. Bax: “Malditos alemães!!!! Miseráveis!!! Oak, Oak, venha aqui seu imprestável” – nessa hora, você deve ter a noção de como eu queria mandá-lo para o meio do inferno. Ele mandou eu e meus homens flanquearem as posições dos chucrutes através de uma fazenda nas proximidades.
O grupo do Angie ficou tentando segurar os alemães enquanto o meu grupo dava a volta e flanqueava-os. Mas caímos numa armadilha. Os krauts estavam esperando essa nossa ação e se posicionaram, então começou um tiroteio desgraçado. Eu atirava e gritava: “PROCUREM ABRIGO!!! VÃO, VÃO, VÃO!!!!”

Enquanto o Nox, o Topak, o Fox, o Judas e o Cherok respondiam ao fogo, o Silver, Holyman, Capovich, O’Brian e Frenchman tentavam avançar, mas sem sucesso. Pensei: “Que maldição!!! Desse jeito ficaremos aqui o dia todo!!!”.

De repente eu vi um oficial do Fox-16 avançando com toda a companhia em um ataque frontal contra as posições alemãs. Eu e os meus homens estávamos do lado direito do ataque desse irresponsável e vimos uma grande parte de seus homens sendo aniquilada pelas 42’s alemães.

Tomei uma atitude. Decidi que iríamos flanquear pelo lado direito, enquanto o Nox, e companhia, iriam nos cobrir – somente Silver ficaria com eles porque ele carregava o nosso rádio. Fomos eu, Holyman, Capovich, O’Brian e Frenchman. Fomos com a cara e a coragem. Enquanto o Fox-16 avançava pela frente atraindo todo o fogo inimigo, o Fox-18 avançava pelo flanco direito na esperança de pegar os chucrutes desprevenidos. E conseguimos! Tomamos a fazenda com resistência média – os krauts resistiram bem, nunca vi um disparar um mauser tão rápido, até que aquela geringonça emperrou e ele morreu depois que eu descarreguei o resto do pente da Thompson nele. Gritei: “ASSEGUREM A ÁREA!!! NÃO DEIXEM NINGUÉM ESCAPAR!!!”. Nos separamos do pessoal do Fox-16 e flanqueamos a posição alemã que estava segurando o resto dos nossos homens e a eliminamos. Nenhum quis se render – preferiram serem mortos a se renderem. Com essa área segura, rumamos direto para Carentan.

É claro que no caminho encontramos resistência nazista, mas ela não foi tão intensa quanto à de Saint Come Du Mont ou de Purple Heart Lane. Normalmente encontrávamos 2 MG’s e soldados armados, sem apoio de blindados (Panzers & Tigers). Só tínhamos que ficar esperto para não sermos emboscados pelos krauts.

Chegamos em Carentan no dia 13 de junho, nos fundimos com o resto da divisão (acredite, era muita gente!) e logo recebemos as ordens para o plano de ataque. Os grupos meu (502nd PIR, Companhia Fox-18, 101st) e do Angie (505th PIR, companhia Able-16, 82nd) iriam em direção da igreja, a tomariam-na, e em seguida asseguraria a área ao redor, enquanto o resto da divisão iria arrombar casa a casa e eliminando os alemães.

O sinal do ataque foi dado, os disparos das metralhadoras alemãs começaram e vidas começaram a ser ceifadas.

Os krauts se entrincheiraram nos prédios à frente e atiravam sem cessar. Tínhamos que furar as defesas deles para conseguirmos entrar na cidade. Com muito esforço, conseguimos e sem perder nenhum membro do nosso grupo. E a luta urbana começou.

Os chucrutes atiravam na gente de esquinas, becos e até de janelas. Era muito fácil de sermos atingidos por um bastardo. A luta começou a ficar feia. Os alemães começaram a ficar desesperados para defender a posição e começavam a tomar medidas drásticas, como por exemplo: expor seus franco-atiradores. Eu e o Angie gritávamos: “NÃO SE EXPONHAM, PROTEJAM-SE!!!!”, na esperança de coordenarmos nossos homens para que não houvessem baixas.

Com muito esforço e sem nenhuma baixa, chegamos perto da igreja. Foi nesse instante que ouvimos uma explosão relativamente próxima e em seguida um grito: “ELES NOS LOCALIZARAM, SAIAM DO MEIO DA RUA!!! SAIAM DO MEIO DA RUA!!!!” – e a chuva de morteiros alemães começou. Foi uma confusão. E nessa hora o Angie mandou o Cavallera, Tritton, Teddy, Toullouzzi e Thor assaltarem a igreja pelo flanco direito, enquanto eu mandei o Nox, Fox, Topak, Cherok fazerem o mesmo pelo flanco esquerdo. Enquanto esses dois grupos avançavam, o resto dos homens (incluindo o Angie e eu) os cobria, descarregando nas MG’s alemães que atiravam sem cessar, complementadas pela chuva de explosões.

De repente, o Cavallera é atingido por um morteiro e os outros que estavam com ele, apenas caíram, não se ferindo. O Angie correu em sua direção para ajudá-lo. Eu fui com ele, cobrindo-o e chegando lá, encontramos o Cavallera no chão e um monte de sangue no lugar onde estariam as suas pernas. Naquela hora, por um instante eu me desliguei. Não sei porque, simplesmente me desliguei – fiquei olhando aquele sangue e imaginado: “será que algum de nós voltará para casa inteiro?”. Voltei a mim rápido o suficiente para sinalizar ajuda. Arrombamos a porta da igreja, sob os tiros e os sons e das explosões da artilharia. Sinalizei para que todos se juntarem a nós dentro da igreja.

Quando entramos, asseguramos o local e chamamos o médico do esquadrão para cuidar do Cavallera, que conseguiu a sua passagem para casa de uma maneira estranha. Colocamos ele no chão, ainda sangrando e nisso, o Angie, ainda em choque me chama e aponta para o meu braço esquerdo. Olhei e vi um buraco e quando olhei para a minha mão, vi o sangue quente escorrer. Havia levado um tiro. Mas eu não havia sentido dor alguma, talvez por causa da adrenalina. O Angie até comentou em chamar um médico, mas eu recusei, pois o Cavallera precisava de cuidados tanto quanto eu. Sentei e improvisei um torniquete com um pedaço de corda que eu carregava desde o salto. E para a minha surpresa, o padre ainda estava dentro da igreja (realmente ele devia ter muita fé para ficar no fogo cruzado).

Quando acabei, outro pessoal entrava, eram uns caras do 501st PIR (101st divisão) que traziam um “presente”. Traziam um alemão capturado. O amarraram num banco e começaram a interrogá-lo, mas não entendiam nada de alemão. Até que perguntaram: “Alguém aí, entende alguma coisa que esse miserável esta falando?”. Nessa ora eu me ofereci para interrogá-lo, enquanto o resto do grupo montava um posto de comando e uma enfermaria improvisados.
E comecei, só que ele só falava o nome, o posto e o número de série. Foi então que eu disse: “Hier hörend Fritz, kann ich Sie von diesem lebendigen entfernen, mindestens! Sie müssen nur zusammenarbeiten. Falls dieses Gegenteil ich Sie mit meinen Freunden hier lassen, das besitzen sie nicht die gleiche Geduld, der I, das zu Ihnen in einigen Stücken schneidet und sie Sie Haus in einema Sarg bestellt! Verstandener Fritz? Sie müssen nur zusammenarbeiten!“ (Escuta aqui Fritz, eu posso te tirar dessa vivo, pelo menos! É só você cooperar. Caso contrário eu te deixarei com os meus amigos aqui, que não possuem a mesma paciência que eu, que te cortarão em vários pedaços e te mandarão para casa num caixão!!! Entendeu Fritz? É só você cooperar!). Nesse momento eu percebi que ele iria cooperar. E fiz uma série de perguntas, como: quantas divisões de “Fallschirmjäger” (pára-quedistas alemães) tinham em Carentan? E ele respondeu todas, sem pestanejar. Ele até disse que as casas que rodeavam a igreja estavam cheias de alemães equipados com armas pesadas – desde de FG-42 (Fallschirmjäger Gewehr, 1942) até Panzerfausts & Panzerschrecks. Então decidimos limpá-las.
Chamei os caras do 501st PIR (Baker-14). Eram 6: Stempler (Sld), Doyle (Cb), Gossard (Spc), Allen (Sld), Basil (Cb) e Ingramm (Sgt). E também chamei o Angie. Expliquei a situação e sugeri a estratégia: Allen e Basil subiriam ao campanário da igreja e forneceriam fogo de cobertura (com uma Browning cal.30 e armas leves), Angie, Teddy, Peterson, Tarket e Doyle iriam limpar as casas do outro lado da igreja e Nox, Cherok, Frenchman, Stempler e eu iríamos limpar as casas desse lado da igreja. Gossard e Ingramm iriam ficar dentro da igreja, ajudariam o resto do pessoal e serviriam como equipe de apoio. Combinamos que os grupos de assalto se encontrariam na casa na frente da igreja. E fomos.

O meu grupo arrombou a porta da igreja e logo encontrou um comitê de recepção. Duas MG-42 atiravam em nós através das janelas dos prédios depois do muro da igreja, que tinha, mais ou menos, um metro e meio de altura. Corremos até esse muro para nos abrigarmos.
No caminho, Stempler foi atingido, mas não mortalmente. Ordenei: FOGO DE COBERTURA!!! DESCARREGUEM!!! – então fui até onde o Stempler estava e o arrastei, enquanto ele gritava: “ARGH!!! CHUCRUTE MISERÁVEL!!!” e tentava acertar os alemães nas janelas com sua BAR (apesar de segura-la apenas com sua mão direita, enquanto que com a esquerda, além de o braço servir de apoio pro fuzil, ele pressionava o ferimento que a 42 tinha feito em sua coxa direita). Chegando no muro, fui ver como ele estava: tinha levado 2 tiros – um na coxa direita e o outro no braço esquerdo. Tentei estancar o sangramento, improvisando um torniquete na perna dele e enquanto isso, ele xingava até a 9º geração alemã. “Fica quieto, soldado” eu falava enquanto tentava estancar o sangue. Até que o Cherok disse: “Deixa sargento, eu cuido dele e você cuida das casas.” – concordei, chamei os outros 2 e disse: “Nox, se prepara pra correr até a casa. Eu e o Frenchman jogaremos granadas naquelas janelas e quando elas explodirem, você avança”. Ele concordou.

Nessa hora eu peguei uma granada, tirei o pino e me preparei pra jogar, juntamente com o Frenchman. Jogamos e só deu pra ouvir: “UHR HERAUS!!! GRANAT!!!” (CUIDADO!!! GRANADA!!!) – depois disso a granada explodiu e um dos krauts saiu voando pela janela e caiu na rua. Nisso, o Nox já estava nos esperando na porta da casa e esse alemão, que estava meio tonto, tentou se levantar. Mas o Nox terminou por matá-lo.

Nos juntamos a ele e arrombamos a primeira casa. Entramos, matamos os seus ocupantes nazistas e saímos. Éramos rápidos, para não dar tempo para eles revidarem. As vezes pegávamos eles desprevenidos, outras vezes eles estavam preparados. Então decidimos “limpar” as entradas com uma granada antes de efetuar a ação.

Quando chegamos a última casa, não limpamos, eu arrombei e entrei na frente. Fiz um sinal para o Frenchman e pro Nox para que eles limpassem o térreo, enquanto eu subi para assegurar o superior. Comecei a subir e vi que tinha 2 portas, uma estava fechada e outra estava aberta. Pensei: “é aqui que está o alemão” – fiz pontaria com a Thompson e a descarreguei. Quando estava recarregando(tinha acabado de colocar o pente), ouvi algo atrás de mim em francês (acho que era: “Montre dehors” - que significa algo me torno de: Cuidado!), me virei e um alemão voou pra cima de mim com o fuzil, tentando me matar. Ficamos lá, disputando a arma, hora eu, hora ele, um socando o outro e tentando afastar a arma – ele ficava falando: “Würfel! Sie amerikanisches Schwein!” (Morra! Seu americano miserável!). Percebi que ele estava sem o capacete, então eu, sem dó, dei umas 2 ou 3 cabeçadas nele, que caiu no chão e ficou dizendo: “Amerikanisches Schwein! Sie brachen meine Nase!” (Americano Miserável! Você quebrou o meu nariz!). Nessa hora, eu, cambaleante, agarrei a minha Thompson, a engatilhei e a disparei contra o aquele canalha, que morreu instantaneamente. Fui verificar de onde ele tinha saído e vi uma civil francesa encolhida e chorando num canto de tão assustada que ficou – ela devia ter por volta dos 16/17 anos. Foi ela que me salvou então eu me aproximei e me abaixei perto ela e disse (graças ao Frenchman): “Merci” (Obrigado) – nessa hora ela enxugou as lágrimas e sorriu – um sorriso bonito que eu retribuí. Pensei: “se eu me arriscasse todos os dias por um sorriso desses, estaria feliz”. Chamei o Frenchman para ficar com ela e confortá-la um pouco (ele era o interprete de francês, não eu). Então eu desci para me encontrar com o Nox, que estava de vigia na porta.

Me aproximei do Nox e perguntei: “vê mais alguma coisa?” e ele respondeu: “não, não vejo mais nenhum kraut”. Apesar da artilharia ainda cair perto da nossa área, o Nox não se alterava (a guerra já nos deixou acostumados a isso) Então, de repente, o campanário da torre da igreja foi atingido por um morteiro – não sobrou nada. Nessa hora eu me lembrei: “Allen e Basil estavam lá!”. Ordenei que o Nox ficasse com o Frenchman enquanto eu corria de volta para a igreja.
Chegando lá, todos estavam desesperados querendo ir onde era o campanário. Nesse instante, o Basil aparece cambaleando, todo acabado. Todo o corpo dele estava ferido e encharcado de sangue. Fomos rápido em direção dele e o seguramos. Tentamos falar com ele, mas ele esta meio surdo com a explosão – o Sgt. Med. Charles Campwell (Doc), nosso médico de campo disse que ele ficaria bem, mas nesse estado deveria voltar pra casa.

Depois que o Doc disse essas palavras, um outro grupo de pára-quedistas da 101st divisão entrou na igreja, eram os rapazes do 506th PIR, companhia Dog-19: Stunner (Sgt), Kirbsky (Cb), Tan (Spc), Juliet (Sld) e Zarkavich (Sld) que carregavam 2 feridos, Josh (Cb) e Travis (Sld). Traziam também consigo um outro médico: Sgt. Med. Raul Camarro que, quando eles colocaram os 2 feridos no chão, logo os atendeu. Percebi que o Stempler já estava sendo tratado (aliás, ele estava até conversando com o Cherok).

Enquanto estávamos na igreja, o grupo do Angie retornou, seguido por 3 rapazes do 506th PIR, Companhia Charlie-13: Gallangher(Sgt), Ruans (Sld) e Daniels(Cb), que logo se apresentaram. Depois disso, o sgt. Gallangher nos informou que a companhia Easy (506th PIR, 101st) tinha empurrado os alemães para fora de um trecho da cidade, mas um batalhão de Fallschirmjäger foi visto avançando em direção da igreja, tendo consigo o auxílio de blindados. Quanto ao blindados, Gallangher disse que tínhamos armas antitanque (Bazookas M9A1 e Panzerschrecks capturadas dos alemães), então só precisávamos nos preocupar com a infantaria propriamente dita.

Como o campanário estava inutilizado, tínhamos que nos abrigar no muro sul da igreja e firmar lá nossas posições. Para a nossa “alegria”, mais 2 pára-quedistas se juntaram à nós: McDonnis (Sld) e Durks (Sld) ambos do 506th PIR, Companhia Charlie-13, 101st Divisão (sim, eram do grupo do Gallangher). Com toda a ajuda que conseguimos, montamos as defesas e ficamos a esperar os chucrutes. O pior não eram os tanques, mas sim os feridos dentro da igreja. Tínhamos que resistir.

Toullouzzi, o franco-atirador do grupo do Angie, tinha se juntado com o Peterson, Thor, Stan, Lou e Tomasso, onde montaram posições no prédio do lado direito da igreja. Fox, Topak, Silver, Capovich e Holyman ficariam no prédio do lado esquerdo. Ambos esses 2 grupos portavam uma metralhadora Browning cal.30. O Nox e o Frenchman tinham recuado para a igreja, trouxeram aquela garota consigo (ela ainda estava muito assustada) e deixaram-na com o padre, que ainda estava dentro da igreja.

Dá pra imaginar a situação? O Plt. Sgt. Stuart tinha se juntado a outro grupo de uma outra divisão, enquanto os 2 únicos oficiais de alto escalão estavam desaparecidos. Essa área de Carentan tinha que ser defendida por um bando de sargentos e seus homens que neles confiavam suas vidas para voltar para suas famílias.

Enquanto filosofávamos sobre a presente situação, o soldado McDonnis, a mando do Sgt. Gallangher, tentou subir no campanário destruído para nos dizer quantos alemães se aproximavam. Chegando lá em cima ele observou ao redor com seus binóculos e sinalizou: 1 batalhão de Fallschirmjäger acompanhado por 3 tanques da classe Panzer IV, em outras palavras, estávamos ferrados! Segundo ele, os tanques avançavam separados um do outro e o batalhão de krauts estava dividido em três, cada um com, mais ou menos, 15 homens cada. Isso quer dizer que lidaríamos com, mais ou menos, 45 krauts, sendo que possuíamos, aproximadamente 20 homens disponíveis para combater. Repito: estávamos ferrados! A respeito dos tanques, possuíamos 2 foguetes de Bazooka M9A1 e 2 foguetes de Panzerschrecks – um Panzer IV não cairia com um tiro, então tínhamos que usar 2 para cada tanque e improvisar para destruir o terceiro. Mais uma vez: estávamos ferrados! As armas antitanque seriam manejadas pelos homens restantes do Baker-14 (Doyle, Gossard e Ingramm) e pelos homens restantes do Dog-19 (Stunner, Kirbsky, Tan e Juliet). O resto dos homens: Fox-18, Able-16 e Charlie-13, descartando os 2 grupos das posições das metralhadoras, iriam defender a igreja.

O ataque começou e os alemães, apesar de virem de ruas consideradas estreitas, conseguiam se abrigar dos nossos tiros. Foi um inferno! As nossas metralhadoras (dos grupos do Tomasso e do Capovich) não paravam de atirar. Eu podia ouvir o zunido das balas bem de perto. Atirávamos em tudo o que víamos e matávamos tudo o que não buscasse abrigo.

De repente, o Sgt Gallangher grita: “TANQUE!!!! TANQUE!!!” – o primeiro Panzer aparece vindo da rua principal. Imediatamente eu gritei: “INGRAMM, ELE É SEU!!! ACABA COM ELE!!!”. Nisso, ele dá sinal para seus homens para carregarem a bazooka e atirarem no tanque alemão. Foi o primeiro tiro e o foguete acerta o tanque em cheio, chacoalhando-o. Foi o segundo tiro que inutiliza o tanque permanentemente. Um dos tripulantes tentou sair, mas foi, literalmente, executado pelo cabo Doyle.

O ataque alemão prosseguiu. Foi quando ouvimos um estrondo e uma explosão próxima a parede da igreja e o Durks, que estava junto dali, foi arremessado longe. Ruans correu até lá para ver se ele estava bem e foi atingido na perna por um atirador alemão. Durks só estava meio tonto com a explosão, se levantou e arrastou o amigo ferido para longe do combate.

Ouvimos outro estrondo, seguido de outra explosão. Foi quando o Sgt. Gallangher me chamou e disse: “Oak, tem um tanque bem ali! Ele entrou pela vitrine da loja!!! Sinalize o Stunner para pegá-lo!”. Concordei e o fiz: “STUNNER, NA VITRINE DA LOJA! NA VITRINE DA LOJA! PEGUE-O!!!”. Nisso, o próprio Stunner pegou a Panzerschreck, fez pontaria e atirou. O tiro foi certeiro, mas o artilheiro do tanque disparou o canhão, atingindo a parede da igreja onde todos se abrigavam, arremessando-os bruscamente. Eles não se feriram gravemente, porque o ponto de impacto do projétil não atingiu exatamente onde eles estavam – a grande maioria ficou desacordada e/ou com pequenos ferimentos superficiais. Nisso, o Stunner aproveitou que o tanque estava recarregando o canhão, fez pontaria novamente e disparou. A explosão foi forte e o tanque parou e dessa vez, nenhum integrante dele saiu.

A luta prosseguia intensamente. Os krauts queriam a todo custo tomar a nossa posição. Foi nessa hora que eles começaram a jogar granadas em nós – ficamos desesperados para pegá-las e joga-las de volta ou simplesmente nos abrigarmos e esperarmos elas explodirem.

Enquanto tínhamos as nossas atenções voltadas para essa situação, o Sgt. Gallangher novamente grita: “TANQUE!!!”, respondi: “O QUE ESTÁ ESPERANDO, ACERTA ELE!!!” e ele explicou: “ACABOU!!! SEM FOGUETES!!!” – corri para onde ele estava e perguntei: “Você tem COMP-B ou TNT?”, ele respondeu: “Tenho sim! Um COMP-B e 5 cargas de TNT!” então eu falei: “Me passe o COMP-B e o bastão do detonador!”, daí ele me perguntou: “O que você vai fazer?”, respondi: “Fique olhando!”, e saí correndo na direção do tanque. Nessa hora eu pude ouvir o Gallangher gritando: “VOLTE AQUI SEU DOIDO!!! QUE DROGA!!! COBERTURA!!!!” – quando isso aconteceu, eu virei o alvo primário dos alemães, mas eu atirava em tudo que eu pude ver na esperança de, pelo menos, suprimir a agressão. O tanque tentou girar sua torre para atirar em mim, mas ela era muito lenta e não conseguiu.

Chegando ao tanque, subi perto pela parte de trás e fui direto em direção da torre. Tirei o COMP-B da mochila, retirei o pino do orifício, introduzi o bastão do detonador, girei-o, abri a escotilha da torre do tanque, tirei o pino de segurança do bastão do detonador (aqui eu armei a carga), joguei o COMP-B armado dentro da torre do tanque e fechei a escotilha – tudo isso, sob fogo cerrado dos krauts. Nessa hora eu pulei do tanque e corri o mais rápido possível para me proteger – corri para um edifício, perto de uma esquina. A explosão foi muito forte! Saiu fogo até mesmo pelo canhão do tanque e a escotilha foi completamente destruída pela força da explosão. Depois dessa cena, eu pude ouvir gritos vindos da esquina: “Laufen Sie für Ihre Leben!!! Wir verloren unsere Rüstung Unterstützung!!!” (Corram por suas vidas!!! Perdemos nosso apoio blindado!!!), engatilhei a Thompson, me inclinei e comecei a atirar nos alemães em retirada (quem não correu rápido o bastante ficou lá mesmo estirado no chão!) – atirei até que a munição do pente se esgotasse, pois quando ela acabou e eu comecei a recarregar, os krauts já tinham ido.

Tínhamos vencido! Enfim um descanso. Voltei para a frente do edifício, encostei minhas costas contra a parece e deixei meu corpo deslizar até o chão. Estava ofegante e um pouco trêmulo. O Angie e o Gallangher vieram até mim para saberem se eu estava bem. Nisso, escuto o trote de cavalos. Pensei: “Não é possível que os Krauts mandaram uma unidade de cavalaria!”. Mas não eram os alemães, mas sim um sargento do 506th PIR que logo que chegou, perguntou: “Quem de vocês é o sargento Oak?”, respondi que era eu e então ele disse: “Tenho um recado do coronel Baxter: ele disse que o Plt.Sgt. Stuart foi ferido e o comando geral do grupo é seu. Ele quer que você se re-agrupe com ele próximo a colina .30 – a companhia Easy (506th PIR) já está rumando para lá enquanto falamos”. Depois do jovem sargento ter me dito essas palavras e ter partido, chamei o grande grupo e expliquei a situação. Disse que, descartando os feridos, o resto iria conosco até a colina .30. Tiramos algum tempo de descanso, o Doc aproveitou e extraiu o projétil do meu braço (e o enfaixou também), pegamos munição e água e fomos.

A colina .30 ficava nos arredores de Carentan. Era uma defesa natural, com bastante vegetação.

Chegando perto dela, com aquele imenso grupo, já ouvimos os sons da batalha. A Companhia Easy estava tentando desesperadamente segurar aquela linha. Sob fogo, nos unimos a eles e logo fui chamado para me apresentar ao Tenente Winters, que estava e um ponto mais protegido – ele me disse para segurar a linha, custe o que custar (se não conseguíssemos, os alemães poderiam retomar Carentan!). Depois de receber as minhas ordens, voltei para onde meus homens estavam e disse: “MUITO BEM GENTE, TEMOS QUE SEGURAR ESSA LINHA CUSTE O QUE CUSTAR...CASO CONTRÁRIO, OS KRAUTS PODEM RETOMAR CARENTAN!!!” e eles entenderam e logo trataram de se protegerem.

Falando nos homens, eu encontrei mais 7 da Companhia Fox-18 do 502nd PIR: Kirzarsky, Porter, Potter, Olivers, Downies, Syphers e Ramirez. O Porter e o Potter, ao contrário do que todos pensavam, não eram irmãos e muito menos amigos de infância. Acredite, que mesmo com a droga do erro do salto e de tudo que se passou nesses 7 dias infernais na Normandia, eles conseguiram permanecer juntos. Como a pronúncia dos nomes deles era semelhante, chamávamos respectivamente de “Roger” e “Tare” (Roger significa ‘R’ e Tare significa ‘T’ no nosso alfabeto fonético). Encontramos também outros rapazes: Tyler “Ren” Reyenne (506th PIR, Item-20), Francis Coppleville (501st PIR, King-15), Martin Slugs (505th PIR, Dog-12), Abe Terens (506th PIR, Item-20) e Tuds Friks (Sgt – 505th PIR, How-12).

Eu não preciso dizer que aquele foi um combate horrivelmente intenso. Só ouvíamos os zunidos dos tiros, as explosões dos morteiros alemães, os sons dos tiros acertando o chão e os gritos de pára-quedistas moribundos, que às vezes chamavam pelas mães, ou dos que eram atingidos ou dos que agonizavam violentamente, esperando que a morte chegasse logo.

Logo que começamos a responder o fogo, Coppleville foi atingido na cabeça e morreu na hora. Em seguida, Friks foi atingido por uma explosão de morteiro e ficou incapacitado de continuar. Ali permanecemos lutando e tentando nos proteger. Eu ouvia os gritos: “A SILUETAS!!! PROCUREM AS SILUETAS DELES!!! ATIREM SEM CESSAR, MALDIÇÃO!!! DESCARREGUEM!!!”.

Foi quando eu notei que o Ren só ficava encolhido, sem sequer disparar o seu fuzil. Então fui até onde ele estava e disse: “Ren! O que você pensa que está fazendo? Há homens morrendo aqui...recomponha-se!!! Pegue essa porcaria de rifle e comece a atirar nos alemães!!!”. Nessa hora ele, ainda um pouco assustado, pegou seu rifle, fez pontaria e começou a dispará-lo até que a munição acabou e ele foi recarregar. Nisso, ele levou um tiro do ombro esquerdo e caiu no chão berrando, ficando assim, fora de combate. Quando isso aconteceu, eu abaixei e comecei a tentar estancar o sangramento com as minhas próprias mãos enquanto eu gritava: “MÉDICO!!! MÉDICO!!!!” – que atendeu os meus gritos foi o Sgt. Med. Camarro (o Doc ficou em Carentan) que quando chegou lá, já tratou de cuidar do Ren.

Seguramos os krauts até o escurecer. Acampamos lá mesmo. Cavamos algumas trincheiras pequenas (chamadas por nós de “Fox-Holes” ou Buracos de Raposas) para permanecerem duplas – enquanto um dormia, o outro vigiava. Eu não consegui dormir, então eu me assegurei que os que estavam de vigia ficassem acordados. Cheguei na trincheira onde estavam o Gallangher e o McDonnis, que estava fumando um cigarro e quase me apunhalou com a baioneta (me confundiu com um alemão, eu ultraje!). Só sei que um pobre infeliz da Easy não teve a mesma sorte, porque ele foi apunhalado pelo companheiro que o confundiu com um alemão – ouvíamos os gritos, enquanto os médicos o estabilizavam . Enfim, verifiquei se os meus homens precisavam de algo. E assim foi até umas 4 horas da manhã.

Pela manhã, fomos acordados pelos tiros alemães – eu principalmente, porque tinha acabado de pegar no sono. O Angie chega e grita: “HORA DE MERECER O SALÁRIO OAK!!! ACORDA VAGABUNDO!!!” – depois de falar isso, o Stallion, um dos homens do Angie que corria para o seu buraco, foi atingido inúmeras vezes pelos disparos de uma MG-42 e morreu depois de agonizar durante uns 3 minutos, caído perto de uma árvore. Não pudemos fazer nada – se saíssemos naquela hora, talvez mais 5 homens seriam mortos.

Na primeira ‘deixa’ que tivemos, saímos dos nossos buracos e fomos em direção da proteção natural da colina. E ficamos ali trocando tiros. Nisso, o Nox chega pra mim e grita: “QUE BELO DIA PARA MORRER!!! VOCÊ NÃO ACHA, OAK???”, eu respondi: “CALA A BOCA NOX!!! FALA ALGO MAIS CONSTRUTIVO, DESGRAÇADO!!!” e ele começou a cantar uma música muito pertinente:

“Havia um alemão maldito
Numa colina maldita
Eu atirei nele
E ele MORREU!!!!

1, 2, 3 Fritzs mortinhos
4, 5, 6 Fritzs mortinhos
7, 8, 9 Fritzs mortinhos

Agora só falta o Adolfinho!!!”

“ÓTIMO NOX, MELHOROU!!!” e ele, sarcasticamente, respondeu: “OBRIGADO SARGENTO, FAÇO O QUE POSSO!!! HAHAHAHAHA”

Depois desse momento de humor, o coronel Baxter resolve dar as caras e já começo gritando: “VAMOS SEUS INÚTEIS!!! ATIREM! ATIREM! VAMOS LOGO OU EU MESMO OS MATO!!! FOGO NOS KRAUTS!!!”. A tensão era tanta que nem dávamos bola para o que ele falava. Tentávamos nos proteger dos tiros a ouvir o que ele tinha a nos dizer.

Mas parece que não nos protegíamos muito bem: Downies e Syphers foram atingidos por um morteiro que caiu bem perto deles e morreram instantaneamente. Em seguida a isso, eu chamei o Olivers e o Kirzarsky e disse a eles: “Olivers, Kirzarsky, eu preciso que vocês vão até o Tenente Winters e perguntem a ele sobre o paradeiro dos nossos blindados! Se eles estiverem perto o suficiente, podemos chamá-los para virar o jogo aqui! Vão e fiquem com a cabeça abaixada! VÃO!” – eles foram. Ficaram a minha vista o tempo todo. Eu pude ver claramente quando eles voltavam: Olivers na frente, seguido pelo Kirzarsky. E pude ver claramente também, quando um morteiro caiu depois que o Olivers passou e o Kirzarsky foi atingido – ele morreu na hora. Como se isso não bastasse, o cabo Daniels avistou 2 panzers alemães de aproximando. Lembro que a dupla Porter e Potter começaram a gritar: “MEU DEUS!!! TANQUES!!! TEMOS QUE SAIR DAQUI!!! TEMOS QUE SAIR DAQUI!!!” e o Baxter, ao ouvir isso, gritou: “NÓS NÃO VAMOS RECUAR!!!! NÓS VAMOS FICAR, NÓS VAMOS LUTAR, NÓS VAMOS MATAR E NOS VAMOS VENCER!!!” – o Potter até tentou se levantar, mas o Baxter sacou a sua .45 e apontou para ele dizendo: “Não vou tolerar desobediência de minhas ordens soldado! Se tentar sai daqui mais uma vez, eu mesmo o mato por deserção”, depois disso o Potter sossegou.

Enquanto eles tinham essa discussão, o Olivers chegou e me disse ofegante: “Senhor, Winters disse que eles estão perto! O que devemos fazer?” – antes que eu pudesse responder, eu virei para o Baxter e gritei: “CORONEL, NÃO É A HORA E MUITO MENOS O LUGAR PARA ISSO, PELO AMOR DE DEUS!” e ele respondeu: “OAK, CALE A BOCA!!! EU ESTOU ME LIXANDO PARA O QUE VOCÊ FALA!!! VOCÊ É UM COVARDE QUE NÃO TEM O MENOR SENSO DE DEVER!!! EU ESTOU NO COMANDO E EU FAÇO O QUE EU BEM ENTEDER!!!” – terminadas essas palavras, um morteiro explodiu bem em cima dele, arremessando-o longe (ou o que restou dele, pois só a metade de cima foi encontrada!). O Nox, que viu a cena disse: “Obrigado Senhor! Prometo que eu vou a igreja!!!” – isso nos tirou umas boas risadas por um minuto. E os outros responderam: “Amém, irmão!”.

Voltei para o que realmente interessava: chamei o Silver, que era o nosso operador do rádio e disse a ele: “Manny, o Tenente Winters disse que há blindados aliados por perto...contate-os e diga-lhe para virem já pra cá!!! Se afaste um pouco para conseguir transmitir!” – assim ele o fez. Tentou uns 15 minutos até conseguir uma resposta, eu lembro que ele falou algo semelhante a isso: “FOX 6, PODE ME OUVIR? FOX 6, AQUI É FOX 8...RESPONDAM!!! PRECISAMOS DE SUPORTE DOS BLINDADOS PRÓXIMOS A COLINA .30, IMEDIANTAMENTE!!! ELES ESTÃO TENTANDO PENETRAR NAS NOSSAS LINHAS ENQUANTO FALAMOS!!!’ (‘afirmativo, Fox 8, aqui é Fox 6...estou passando a sua localização para o grupo mais próximo’) OK OK, FOX 8 DESLIGANDO!!!” – depois disso ele gritou pra mim: “SARGENTO, EU CONSEGUI!!! ELES ESTÃO VINDO!!!” e um morteiro explodiu perto dele, deixando-o atordoado. Ele tentou se levantar e quando consegui, foi atingido 3 vezes: 2 tiros no peito e um na cabeça...não pudemos fazer nada por ele.

Holyman, que viu tudo, correu até lá para tentar ajuda-lo. Mas todos nós sabíamos que ele tinha morrido (perdoe a minha letra tremida Frans...é muito difícil!). O Nox ao ver aquela cena disse: “É...mais um! É mais um garoto que morre! Malditos alemães bastardos!” – de repente, um projétil o atinge na cabeça e ele cai. “NOX!” eu gritei e ele, no chão, respondeu: “tá tudo bem sargento, pegou no meu capacete! Argh!!! e bem onde eu sinto a minha enxaqueca!!! Ai como dói!!!...como se fala ‘vai se ferrar’ em alemão?”. Nessa hora eu comecei a rir e ele meio que se irritou: “isso mesmo, vai rindo! Não foi com você que isso aconteceu!”. E eu continuava rindo. Que susto aquele idiota me fez passar.

Depois dessa cena meio que cômica, o Gallangher chegou até mim e disse: “Oak, o Cap. Winters me mandou aqui para saber se os blindados estão a caminho! Eles estão?”, eu respondi: “Afirmativo, Gal! Eles estão vindo...só temos que segurar os alemães um pouco mais!”. Então ele se levantou e disse: “Ok!, eu vou avisa-lo e ent...” – antes que ele pudesse terminar, um projétil alemão o atingiu no pescoço e ele caiu do chão cuspindo sangue. “MÉDICO!!! MÉDICO!!! CAMARRO!!!! O GAL FOI ATINGIDO!!!!” eu gritava. O Camarro veio correndo e logo o foi atendendo ele – disse: “Pressione o ferimento dele Oak! Vamos!” e foi o que eu fiz, enquanto falava pro Gallangher: “Vamos lá Gal, agüenta firme cara! Agüenta! Vamos lá sargento!!! Respira! Olhe pra mim!” mas ele não resistiu. Morreu ali mesmo (que lástima!). O Camarra não agüentou, se levantou e gritou pros alemães: “SEUS BASTARDOS!!!! DÊEM UMA CHANCE PRA GENTE, DESGRAÇADOS!!!! DROGA!!! DROGA!!!!” – e como se não bastasse, ele também foi atingido e foram 10 tiros. Ele caiu completamente ensangüentado e já no chão, cuspindo sangue, disse: “que...dro-ga de gue-rra mal-di-ta! Argh! Dro...ga!” – tentamos ajudá-lo, mas ele também não resistiu. Depois que ele partiu eu chamei o Olivers e ordenei para ele fosse buscar uma Browning calibre 30 para a nossa posição e ele foi.

Ouvi os outro gritarem: “VAMOS SAIR DAQUI SARGENTO, ANTES QUE TENHAMOS O MESMO FIM!!!” e eu estava a ponto de concordar, quando eu ouvi gritarem: “SHERMANS!!! SÃO DOS NOSSOS!!!” – eram os nossos tanques que chegaram para nos ajudar. Coincidentemente o Olivers também chegou trazendo a metralhadora consigo.

“VAMOS LÁ!!! HORA DA VINGANÇA!!!”, gritei. “Porter, Potter...manuseiem a calibre 30”, ordenei. E começamos a atirar sem cessar contra aqueles vermes que recuavam como um cão com o rabo entre as pernas. E eles tinham a desvantagem, porque para eles era uma subida eu tinham que enfrentar sob uma chuva de balas. Os tanques deles foram atingidos pelos nossos Shermans e por armas leves antitanque (Bazookas M9). Só paramos de atirar quando não vimos mais nenhum deles de pé (a maioria tinha recuado e passado para o outro lado da colina).

Depois desse combate feroz, fui chamado pelo Ten. Winters que disse para voltarmos para Carentan. Eu disse a ele que perdi meu operador do rádio e ele designou um outro para mim: Spc. James Wisbowski (101st Divisão – 506th PIR, Companhia Easy) e acrescentou: “quando chegarmos a Cherburgo ele volta para a unidade original, okay?” – eu, naturalmente, concordei.

Os Sgts Ingramm (501st PIR, Baker-14) e Stunner (506th PIR, Dog-19) disseram que iriam com o 506th PIR, Easy e o Sgt Daniels (506th PIR, Charlie-13), que fora promovido depois dessa batalha, disse que faria o mesmo e levaria consigo os cabos: Slugs (505th PIR, How-12) e Terens (506th PIR, Item-20). Concordei, pois assim cobriríamos mais terreno. Me despedi deles apertando as mãos. Sobramos apenas eu e o Angie.

Quando voltamos a Carentan, acredite, ainda havia resistência! Mas nada para se preocupar, pois eram apenas alguns grupos de krauts assustados que tentavam sair da cidade. Não deram muito trabalho. O único trabalho foi caçarmos eles por todas aquelas ruas e ruelas daquela cidade em ruínas (olha só Frans, até rimou!).

Depois de tudo isso, nos reunimos na frente da igreja (a mesma que defendemos anteriormente) e, em uma cerimônia simples, o Capovich (101st Divisão – 502nd PIR, Fox-18) e o Tomasso (82nd Divisão – 505th PIR, Able-16) foram promovidos a sargentos(Sgt) e o Toullouzzi (82nd Divisão – 505th PIR, Able-16) foi promovido a soldado de primeira classe (Spc). Eles mereceram! , mas eu não fiquei muito tempo lá com eles, eu me afastei e fui para o outro lado da igreja.

Eu encontrei um lugar para me sentar e tentar descansar. Sentei-me em um caixote que estava lá perto, coloquei a minha arma do lado, tirei o meu capacete e, não agüentando, chorei. Chorei mesmo...se não fizesse, enlouqueceria! Foi então que, em meio aos prantos, eu ouvi uma doce voz dizendo: “Ce que est arrivé monsier?”(O que houve senhor?) – era aquela garota francesa que eu tinha salvado e que, naquela hora, me olhava com espanto, como se nunca tivesse visto um homem chorar. Fiz um gesto de “não foi nada”, mas ela veio e sentou-se ao meu lado e disse: “Je sais mange est. J'ai déjà passé donc.” (Eu sei como é. Já passei por isso.). E eu continuava a chorar. Então ela, docemente, abraçou a minha cabeça contra ela e começou a cantarolar uma música (muito bonita por sinal), agindo da mesma forma como uma mãe que tenta acalmar uma criança pequena. Aos poucos eu fui me acalmando. Esfreguei as minhas lágrimas, sorri e disse: “Merci”, e ela respondeu: “Ce a été ce que je pourrai faire par mon héros” (Foi o que eu pude fazer pelo meu herói – quando o Frenchman me disse a tradução dessa frase, você não imagina como eu fiquei vermelho!) e ela acrescentou: “à propôs, je m'appelle Marie” (a propósito, meu nome é Marie) e com o pouco que eu entendi, eu respondi: “Je suis Luke” (Eu sou Luke) e ela sorriu (e eu fiquei sem-jeito).

Com o pouco de francês que eu sabia (graças ao Frenchman) eu consegui conversar um pouco com ela, sem falar que ela entendia um pouco de alemão (o que eu evitava de falar, porque quando eu falava uma palavra em alemão, ela me olhava com aquele olhar de “não estrague tudo!”) e de inglês. Dei muitas risadas com ela. Incrível, em uma conversa ela conseguiu tirar de mim o stress de mais de 8 dias de combate. Ela me contou de como era antes de chegarmos, como os alemães faziam represálias e abusavam das pessoas daquela cidade e para fazer um contra-peso nisso, eu contava algumas situações engraçadas que eu e os rapazes passamos (sem falar que eu contava os episódios da nossa infância, Frans) e ela ria muito.

Escureceu e continuamos, lá, conversando, até que eu ouvi um grito que dizia: “Marie, vienne dîner!” (Marie, venha jantar!) e ela respondeu: “Oui, mère!” (Sim, mãe!) – ela se virou pra mim e disse: “C'est ma mère, j'ai qu'ira! Jusqu'plus à, monsier Luke” (É a minha mãe, tenho que ir! Até mais, senhor Luke) e eu respondi: “Jusqu'à, Marie de manque” (Até, senhorita Marie). Ela sorriu e foi em direção da mãe dela.

Agora sem a minha companhia e já escuro, coloquei o meu capacete, peguei a minha arma, coloquei-a no ombro e voltei para onde os outros estavam. O Angie ao me ver, já perguntou: “Onde você estava? Você perdeu o Tomasso fazendo uma imitação do General Patton, que foi muito engraçada, por sinal!” e antes que eu pudesse responder, o Frenchman disse: “Ele estava acompanhado, sargento” – O Angie me olhou com aquela cara de “eu saquei” e disse: “Entendo! Só me diga uma coisa: essa tal companhia era bonitinha?” e o Frenchman disse: “Vi tudo sargento, era uma graçinha!”. Você deve imaginar como eu fui zuado pelo Angie, Frenchman, Nox e Tomasso. Eles ainda me pagam. O Toullouzzi, chegou no meio da conversa e já começou me zuando (apesar de ele ser o mais sério da turma – sempre com um cigarro aceso) – “tudo bem, hoje passa”, eu disse a eles que deram risada (gargalharam para falar a verdade).

Como diz o ditado: “a justiça tarda, mas não falha”. Enquanto conversávamos, o correio chegou (recebi uma carta do Bearstov – depois eu te conto mais detalhes) e o Angie e o Toullouzzi receberam cartas...das namoradas! Isso mesmo, das namoradas! Eu não disse nada...os outros zuaram até dizer chega! (hahahaha).

Muito bem Frans, agora eu preciso ir. Amanhã promete ser um dia bem puxado (rumaremos para a cidadezinha de Bapte). Eu ainda tenho que terminar de comer, limpar a minha arma, me barbear (sabe como é, depois de uma semana o negócio fica horrível) e tentar dormir um pouco (e eu não sei se vou conseguir).

Como sempre eu te peço que filtre o máximo possível dessa carta antes de contar para os meus pais, okay? Isso porque, ou eles enfartam ou eles vão pensar besteira de mim aqui! (hahahaha)

Fica com DEUS, amigo e continue orando por mim.
Um abraço, do seu amigo

Luke SaintJames Oak

Labels: